"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Quinta-feira, 3 de Outubro de 2019
Morreu Freitas do Amaral

Requiescat in Pace

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Freitas do Amaral teve uma longa e intensa vida política, com cerca de cinco décadas de intervenção pública: foi fundador e primeiro presidente do CDS, fez parte de governos da Aliança Democrática, entre 1979 e 1983, e foi primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro. Foi também candidato nas históricas presidenciais de 1986, contra Mário Soares, e, já neste século, foi ministro dos Negócios Estrangeiro num governo PS (2005-2006) como independente, após ter saído do CDS em 1992.
Nascido em 21 de Julho de 1941, na Póvoa de Varzim, Diogo Freitas do Amaral passou a infância entre Guimarães (de onde era natural o pai) e a Póvoa de Varzim (a terra da mãe), mas os primeiros anos foram muito marcados pela morte dos dois irmãos mais velhos, ainda crianças. Queria ser engenheiro, mas, sem jeito para Matemática, deixou-se convencer por dois tios que estudaram Direito e lhe “falavam das suas aulas com os professores Marcello Caetano e Galvão Teles”, contou em entrevista à Sábado em 2017. Acabou por se formar em Direito da Universidade de Lisboa. Obteve o grau de Doutor em Direito (Direito público) em 1967 e ensinou na faculdade até 1998. 
Na apresentação do seu terceiro livro de memórias políticas, intitulado Mais 35 anos de democracia - um percurso singular, em junho passado, Freitas revelou que o que mais o marcou na vida foi a sua “militância democrata-cristã”, “com a preocupação de ajudar os outros”. Na ocasião, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa descreveu-o como “um dos quatro pais líderes dos partidos estruturantes da democracia portuguesa”, juntamente com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Álvaro Cunhal.

 

  Comentário no Facebook de Rodrigues Pereira

" Yes, I did it my way ! " ***
Ao Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral
Não. Não irei falar do político, do co-fundador (e a que custo) da nossa Democracia, do insigne jurista e professor, do único português a ocupar o cargo de Presidente da A. G. das Nações Unidas, etc, etc ...
Vou falar de mim... e do homem.
1994. Bairro Alto, Lisboa. Uma noite de Domingo. Estava a jantar, sozinho, num restaurantezinho italiano, que hoje já não existe. Entretido com a revista do Expresso, já que nessa altura ainda não havia telemóveis para nos infernizarem as refeições.
Com o restaurante meio vazio, não me foi difícil aperceber-me da entrada da família Freitas do Amaral, au complet. A mulher, Maria José, as duas filhas e os dois filhos.
Tinha combatido contra ele nas presidenciais de 1986, com Mário Soares. As tais que levaram Álvaro Cunhal a exortar os seus militantes a cobrir os olhos, mas a votar em Soares...
Nunca tive com Freitas do Amaral qualquer contacto, mas sempre o respeitei como um homem livre e livre-pensador, sem ideias pré-concebidas.
E nessa noite, naquele restaurantezinho meio vazio, apercebi-me de que, naquela mesa de família, havia um zum-zum quase conspirativo, acreditando eu que seria o alvo. Ora enquanto mero e insignificante apoiante de Soares nas presidenciais, já ocorridas há bastantes anos, não me parecia credível que daí viesse o contexto da "conspiração".
Continuei, por isso, a minha solitária manducação, acompanhado da - na altura - a melhor sangria de Lisboa e arredores. E o tempo foi passando, clientes foram saindo, restando eu e a referida família.
A certa altura, o Professor levanta-se e - espanto meu - aborda-me : - «Dá-me licença que me sente ? Gostava de falar consigo ... »
Levantei-me - surpreendido - e quase que mecanicamente, cumprimentei-o e disse "concerteza".
"Sabe - disse-me - a minha filha reconheceu-o da televisão, daquele programa que fez com a Manuela Moura Guedes sobre a SIDA. Eu também vi. E como achei a sua prestação muito boa e nada percebo do assunto, gostava - se me permitir - de, acerca dele, conversar consigo... "
E conversamos...
A certa altura, pede desculpa, vai ter com a mulher e entrega-lhe a chave do carro.
"Assim, ficamos mais à vontade ..."
E ali ficamos, sob o olhar cúmplice do dono do restaurante, a conversar sobre a SIDA e o VIH, durante, seguramente, mais de duas horas. Eu, com a minha amêndoa amarga, ele com sucessivas águas das Pedras.
No final, ainda me ofereci para o levar a casa - ele vivia na Quinta da Marinha, em Cascais - e eu estava a 200 metros de casa. "Era o que faltava ! Apanho um táxi." E lá fomos os dois, até ao Camões, como se dois velhos amigos se tratasse.
Voltei a revê-lo - e a conversar - muitas vezes aos almoços tardios de Domingo, no restaurante do Golf da Quinta da Marinha (onde, um belo dia, ía matando o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, com uma bola que me saiu com um slice estranho) . Comíamos ambos uma extraordinária salada de pato fumado, que ainda hoje me está no paladar ...
Na primeira conversa, disse-me para deixar cair o "Professor" e o tratar apenas por Diogo. Nunca consegui !
Foi, de facto, um Professor eminente, latu sensu !
Vou ter saudades, Senhor Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral !
MRP, 4 de Outubro de 2019
PS 1 - Uns tempos depois de Soares ter ganho as presidenciais, Mário Soares, numa conversa no Hotel Infante de Sagres, confessou-me : " Oh Rodrigues Pereira : a Presidência também teria ficado muito bem entregue ao Freitas do Amaral ... "
PS 2 - *** - As últimas palavras de Freitas do Amaral, aquando da apresentação do seu último livro, citando uma canção de Frank Sinatra. Não podia estar mais de acordo...



Publicado por Tovi às 13:44
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