"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Segunda-feira, 26 de Abril de 2010
O "meu" 25 de Abril (Parte III)

Publiquei também os dois textos sobre «O "meu" 25 de Abril» no fórum da RevistaDeVinhos e os comentários foras estes:

«joao pires» >> Acho este depoimento o maximo. Eu tinha 14 anos, o meu pai, militar de carreira, estava em Luanda, e so o ''conheci'', a partir desta data. Ate entao ''falavamos'' por aerogramas amarelos e cabazes de natal com mangas. A minha mae, atenta, pediu-me para ir buscar a minha irma a Delfim Santos ali a Sete Rios, hoje Universidade Internacional, ou qualquer coisa do genero. Morava no 4 andar da Rua das Furnas, onde sem o saber, mirava diariamente a escola da pide adjacente. Dessa varanda assiti a uma bomba tinha 12 anos, a explosao na embaixada dos EUA e a electricos na Estrada de Benfica 'deselictrificados' por estudantes que apanhavam porrada da pide e mais tarde pelo copcom. Os gritos de 'Viva Portugal' e 'Mata-o' em frente a dita escola ainda estao frescos. Na altura, praticante de Artes Marciais, entendi que algo de importante se passava. Um ano depois tinha lido na chamada ' livraria vermelha' do MRPP ali ao Rato, dezenas de livros politicos entre os quais a versao do Capital. Conheci o Arnaldo de Matos ai e por sorte em 'cruzadas' no chamado 'liceu quartel' do Pedro Nunes escapei a algumas investidas. Tres meses depois estava em Luanda com a familia para me juntar ao meu pai. Regressei um ano depois a fugir e protegido pelas tropas da Unita e comandos Portugueses ate ao aeroporto. Votei pela primeira vez no MRPP, depois... nao interessa... e hoje... ja nao voto. Nao ha 'cor politica' que nao possa agradecer este acontecimento. Se eu soubesse Historia!... Tao, tao IMPORTANTE!... Tovi, nao nos conhecemos, mas 'viajei'... obrigado.

«JTMB» >> Tovi, Fantástico relato do 25 de Abril. Adorei. O meu foi bem diferente. Estava interno no Colégio La Salle em Abrantes. Foi um dia normalissimo, até que a seguir ao jantar pelas 21.00h toca a sirene do colégio e aos microfones mandam todos os alunos para o Teatro. Foi aí que o Irmão Director nos comunicou o que se tinha passado. Fomos dos ultimos Portugueses a saber o que se tinha passado no nosso País.

«Jose_Carlos» >> Tovi e João Pires, Estou muito contente com os vossos post e o desenvolvimento deste tópico, que poderia ser chamado de o "primeiro dia com a LIBERDADE ".

«joao pires» >> Ze Carlos... A VIDA... nao e? E eu quero voltar e nao consigo...

«Jose_Carlos» >> Caro João, Toda a "viagem" tem o seu momento de partida e de chegada. E nisso de "viagens" é sempre bom lembrar-nos de Amyr Kilnk; Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer. Um grande abraço

«xarax» >> Tovi, estou speechless! grande vénia ao teu texto, a ti, e aos outros todos como tu e o que nos ofereceram. o espírito do 25 de abril não desapareceu

«jms» >> Já conhecia estes textos do FB, assim como conheço de alguns encontros o Tovi. Foi com muito gosto que vi que ele foi actor no palco do 25 de Abril. Um abraço

«xarax» >> Jorge, e há uma beleza adicional neste texto. Perceber, como é sempre óbvio mas nem sempre lembrado ou dito, que as produções se fazem com todos os tipos de actores, que há um sítio para as prima donas, para os actores secundários, para os figurantes. O papel de cada um pode parecer irrelevante no contexto das grandes actuações, mas são precisos todos para a peça ir a cena. O Tovi não precisou de acção directa, esteve em castelo de bode a beber minis. MAS, podia ser preciso e ele estava lá. É assim que se define um povo, quando é chamado. Eu acredito no povo português, na sua bondade e generosidade, desejo de justiça e potencial. (detesto expressões como "vamos dizer isto de modo a que as pessoas percebam lá em casa"... não se preocupem, nós cá em casa percebemos, não nos paternalizem) Mas nem sempre nos sentimos chamados. Temos que estar alerta, podemos ser precisos a qq instante.

«jms» >> Sim, é isso. Mas o que nós precisamos é de nos fazermos chamados. Exercer a cidadania - nos deveres e nos direitos.

Obrigado a todos pelas vossas simpáticas palavras. VIVA O 25 DE ABRIL!

«luis ramos lopes» >> Depois de 3 dias sem forum, o texto do Tovi foi o melhor "regresso às aulas" que podia ter tido. Obrigado por o partilhar connosco.

«mlpaiva» >> Já agora, sobre o 25A, eis o post que escrevi, há 5 anos, no tópico "Onde estava no 25 de Abril?" do fórum da NovaCrítica: Pois eu, como já aqui referi, tinha esse dia marcado para exame da carta de condução. Estava, como se dizia, a cumprir o serviço militar no Luso, em Angola. Quando cheguei ao quartel (cerca das 9:00) fui informado: há m**** em Lisboa. Eu era, na ZML (Zona Militar Leste), o responsável pelas comunicações duma região do tamanho de Portugal e tinha a classificação militar de acesso até "muito secreto". Recebia diariamente os relatórios da Pide-DGS. Sabia das movimentações (havia um abaixo-assinado de reivindicações e protestos de oficiais do quadro devido às galopantes regalias dos milicianos que, por ex., com muito menos tempo de serviço, se equiparavam ou até ultrapassavam as suas condições - verdadeira razão do 25 de Abril, o golpe das Caldas, etc.). As vias de comunicação para Lisboa estavam cortadas, não havia televisão, a rádio estava muda... O black-out era total. Mesmo o jornal de grande cobertura (A Província de Angola) só noticiou o evento passados 3 dias... Fui à arrecadação de material de transmissões (de que obviamente era eu o responsável) e levei para casa um rádio de ondas curtas, médias e longas de longo alcance, antenas e um adaptador de corrente alterna/contínua, 220/12V. Almocei tranquilamente e fui fazer o tal exame de condução (a minha preocupação agendada para esse dia). Por atraso do inspector do código, fiz primeiro o exame de condução (outros tempos...). Fiquei liberto às 17:30. Fui para casa, montei as antenas (morava num 2º e último andar), liguei o aparelho de rádio. O sinal era fraco, as interferências muitas. Umas vassouras ajudaram a levantar a antena. A Emissora Nacional nada dizia... Mas consegui sintonizar rádios da África do Sul, a rádio Malawi, a rádio Moscovo, a BBC... Foi por estas que soubemos (eu e o resto do prédio ocupado por oficiais milicianos e suas famílias) o que estava a acontecer. No dia 26, todos éramos os mais bem informados de toda a ZML (uma região maior que a França). Fui, depois, indigitado para sessões de esclarecimento junto dos militares e civis para esclarecer o que eram os direitos do Homem, os diferentes regimes, os partidos políticos... Fiz parte da Comissão de Arrolamento de bens da DGS... (Tive oportunidade de verificar que material de transmissões de que estávamos muito necessitados, havia por lá aos montes... Quando, por razões de serviço, tinha tido de me deslocar à DGS, nunca passei da hall de entrada e era atendido num guichet. Quando fui fazer o arrolamento dos bens, o inspector-chefe veio receber-me à porta e insistiu sempre para ir à sua frente: «Faça o favor, Senhor Alferes... a casa é sua...» Cheguei a Lisboa a 2004-12-23, mesmo a tempo da consoada. O País era outro, bem diferente do que eu deixei e ainda mais diferente do que eu imaginava... Só acrescento: cada vez mais diferente do que eu sonhava...



Publicado por Tovi às 18:09
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