"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Sábado, 21 de Junho de 2008
Histórias de Guerra

Hoje, ao dar uma arrumadela nos ficheiros da pasta “os meus textos”, encontrei um pequeno conto de minha autoria (texto adaptado de “Sô Bicheira e Outros Contos” de A. Bobela-Motta) e que fala das atrocidades nas guerras. É evidente que as “feridas” provocadas pelos “turras” das nossas guerras coloniais ainda não estão devidamente saradas e para quem não bateu com os costados em África, falar é fácil. E as guerras que eclodiram a seguir às independências das ex-colónias também não foram pêra doce. Se tiverem oportunidade de conversar calmamente com quem esteve na guerra, seja ela qual tenha sido, verão que os “FilhosDaPuta” são sempre os que estiveram “do outro lado da barricada” e nunca “os do nosso lado”, mesmo que se venha a admitir que nem tudo o que se fez em algumas batalhas tenham sido dignas de se contar aos netos. Leiam então…

Histórias de Guerra
Notícias inquietantes traziam a população alarmada e impediam o jovem Pedro de ir a casa visitar sua mãe Rosa.
Acções aparentemente isoladas de mercenários portugueses ao serviço de Chipenda tinham efectuado um ataque a Vataku, tomado Vila Branca, desembarques de material de guerra aerotransportado na fronteira em Chicomba e diversas infiltrações de reconhecimento na zona do Namibe.
N’Giva, Chibia e Humpata tinham caído em poder das forças constituídas por sul-africanos e homens da UNITA. As forças do MPLA resistiam teimosamente e o grupo de que o Pedro fazia parte, tinha abatido uma avioneta sul-africana de reconhecimento, a tiro de espingarda. As barreiras instaladas nos arredores da cidade de Lubango são transpostas por dez blindados e trezentos homens aerotransportados. A artilharia operada pelos mercenários portugueses de Chipenda isola a cidade a norte. Às seis horas da tarde a cidade deixa de estar nas mãos das tropas de Luanda.
Rosa prepara a roupa do filho, de quem recebeu recado pelo pastor da Companhia. Às cinco da tarde o seu muito amado Pedro estará escondido junto à mangueira grande da cerâmica, a menos de duzentos metros de casa. Precisa de roupa para despir a farda ensanguentada e mais facilmente conseguir juntar-se aos camaradas que ainda se batem em Cacula e em Vila Branca.
Apareceu um jipe militar sul-africano, conduzido por um gigante barbudo, a seu lado um homem loiro de boina castanha e farda camuflada e dois soldados negros das tropas de Savimbi no banco de trás.
Mandaram parar a velha e o militar branco perguntou:
- Ó mais velha, para onde é a ida?
 - Vou mesmo para a cidade… na casa de uma amiga, levar-lhe a roupa do filho que está doente… eu lavei e cosi – respondeu Rosa.
Depois de lhe revistarem a saca aceitaram a explicação e deixaram-na seguir. Rosa ainda pensou mudar de direcção, para alertar o filho.
Mas o gigante barbudo através dos seus binóculos de campanha, detecta Pedro entre os ramos da mangueira e avisa o militar loiro, que pega na carabina de um dos soldados africanos, faz vagarosamente a pontaria e dispara. Atingido na cabeça, Pedro cai da árvore como fruto apodrecido desprendendo-se do galho. A velha Rosa corre e lança-se como louca sobre o corpo do filho. O seu grito lancinante ecoa por todo o vale, qual uivo pavoroso de fera ferida.
Os soldados correm para a mangueira. Afastam a mãe com uma coronhada brutal para ver de perto, no corpo fuzilado, o ponto em que a bala lhe acertara. E ela, antes de perder a consciência, ainda pôde ouvir um dos soldados negros dizer para o branco loiraça:
- Bom tiro, Sô Tovi! Bom tiro!

 

«Reboredo» / ViriatoWeb ⇒ Espero que sejam Histórias Sô Tovi!

 

Meu grande amigo «Reboredo»… HISTÓRIA é a narração dos acontecimentos, dos factos dignos de memória, enquanto CONTO é só uma pequena narrativa, uma lenda, uma invenção… Mas para que “qualquer coisa” nos venha à mente é no mínimo necessário que já tenhamos pensado nisso ou mesmo vivido acontecimentos muito parecidos com os narrados. E eu, como tu muito bem sabes, andei “muito perto” deste tipo de acontecimentos.

 

«zézen» / ViriatoWeb ⇒ A história pode ser real que não me afecta. O criminoso nem sempre é quem dispara. Matar um homem em situação de guerra é natural, sobretudo quando se pensa ter razão. Criminosos são os que premeditadamente preparam e decidem das guerras. A guerra colonial portuguesa foi um crime imundo e, o exército fascista português teve o papel de executante do regime. A maioria dos jovens soldados, foram "artilhados mentalmente" para se sentirem na pele de quem defendia o que era seu. Tive a sorte de adquirir (graças aos mais velhos) a conciência necessária para ter desertado e não fazer uma guerra condenada moralmente à partida. Nenhum exército de ocupação tem legitimidade para oprimir. Se por acaso alguém pensa que a guerra era justa, que se ..........

Passados 35 anos esta guerra ainda me faz perder as estribeiras. Penso muitas vezes naqueles que a fizeram e especialmente nos que ainda não compreenderam o que lhes aconteceu. Gostava de ter pena dos que por là ficaram enterrados, mas não tenho. Tenho pena dos familiares que os perderam. Pais, Mães, Mulheres, filhos, irmãos, familiares e amigos. Pessoalmente o que me ajudou a dar o salto, foi a consciência adquirida no trabalho associativo e terem-me ensinado a dizer não aos fachos e à sua injustiça. Obrigado a toda aquela gente humilde, muitas as vezes sem formação académica, mas com muita formação humana, que me educaram nos valores da Democracia e no fazer o bem pelo bem. Desculpem lá se sou chato com estas "merdas", mas quem não sente não é boa gente. Os fachos e os pilares que os sustentaram (igreja, latifundiários e grande empresariado), comigo vão de carreta. :twisted:

«XôZé» / ViriatoWeb ⇒ Esta é a tal estória que o Tovi contou há muito, muito tempo, nas Farpas.
«zézen» / ViriatoWeb ⇒ Nunca tinha lido. Acho que faz muito bem em escrever e partilhar connosco. Para ele, Tovi, um Forte Abraço.
 
«rafael de zafra» / AzulJasmim LEVANTO MI COPA POR ELLO, Y AÑADO......
Yo fuí un niño de los que se criaron en las Colonias, en esa otra España que estaba en África, con amigos de toda condición y color, blancos, negros, indianos, mestizos, musulmanes pues en casa escogíamos a la buena gente............... me quedo con la frase de una canción de los años 70 de un programa español "HUBO EN ESPAÑA UNA GUERRA, QUE COMO TODAS LAS GUERRAS, LA GANARA QUIEN GANASE, LA PERDIERON LOS POETAS.........."
Por las colonias, por España, por Portugal, por las gentes de äfrica que siguen sintiendo a España y Portugal en su corazón, por los españoles y portugueses que seguimos sintiendonos africanos........POR ELLOS LEVANTO MI COPA Y POR TÍ TOVI, QUE MUEVES TAN PRECIOSOS RECUERDOS.

Tags: ,

Publicado por Tovi às 12:10
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

4 comentários:
De Reboredo a 27 de Junho de 2008 às 09:52
Caríssimo Tovi,

após uma análise cuidada da " arrumadela" constatei como nas apólices de seguros que em letras mais pequenas se encontrava a expressão "conto" . Do facto tomo a respectiva nota. Acresce, como nas apólices de seguros, o que retemos são as letras grandes. (que muitas vezes se revelam não ser grande coisa) "Histórias de Guerra" Pelo facto as minhas desculpas.

Um abraço,

Reboredo


De Tovi a 27 de Junho de 2008 às 16:36
Os amigos como tu nunca têm de pedir desculpa.
Um grande abraço,


De Nuno a 28 de Outubro de 2008 às 05:44
Sou neto do Bobela Motta e sei que, muitas vezes, aquilo a que ele chamava "contos" lhe valeram algumas passagens pelos calabouços da PIDE em Luanda. Era histórias praticamente reais que ele misturava com outros textos e cenas "realmente reais" que incomodavam muito o regime.


De Tovi a 28 de Outubro de 2008 às 20:47
Infelizmente conheço muito pouco da obra do seu avô, mas sei bem que além de jornalista e homem de letras foi também anti-fascista e apoiante do nacionalismo angolano.
Aproveito para agradecer a sua visita ao meu blog ...e volte sempre.


Comentar post

Mais sobre mim
Descrição
Neste meu blog fica registado “para memória futura” tudo aquilo que escrevo por essa WEB fora.
Links
Pesquisar neste blog
 
Outubro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


24
25
26

27
28
29
30
31


Posts recentes

Evolução das sondagens em...

Chaves eliminou Boavista ...

Conquista de Lisboa aos M...

Últimas notícias de Barce...

O dia seguinte... em Barc...

Greve Geral na Catalunha

Violência doméstica... um...

Já é conhecido o novo Gov...

Corrupção na legalização ...

Independência adiada na C...

Albariño... da Galiza

Dia da Hispanidade

Mais um “incidente” no Ma...

Já se contam espingardas ...

As minhas previsões não f...

PSD venceu as Legislativa...

Pós-eleições… no Facebook

PS vence as Legislativas

Artigo 141.º da Lei Elei...

El Corte Inglés na Rotund...

Arquivos
Tags

todas as tags

Os meus troféus