"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."

Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Um novo 25 de Abril

A solução para os nossos problemas não está em fazer um novo 25 de Abril, mas sim sabermos o que fazer no dia seguinte a esse novo 25 de Abril. Exactamente o mesmo problema que tivemos em 1974.

{#emotions_dlg.meeting} [notícias.sapo.pt] - Otelo defende atuação das forças armadas em nome do povo - O coronel Otelo Saraiva de Carvalho afirmou na quarta-feira, em Coimbra, que só as Forças Armadas, em nome do povo, poderão resolver o problema da perda de soberania de Portugal, como a que atualmente se verifica, derrubando o Governo. Ao proferir uma palestra no Instituto de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC) sobre "As Forças Armadas na Defesa da República e da Democracia Portuguesa", disse que àqueles que reclamam um novo 25 de Abril responde "sem dúvida que era necessário".


«Fátima Gabriel» in Facebook >> Exactamente

«Ricardo Moreira» in Facebook >> Esse tipo perdeu por completo a noção do tempo em que vive...

«Loja Do Pecado Guimarães» in Facebook >> Na altura de os meter no Campo Pequeno faltou-lhes os tubaros   agora está definitivamente a viver a 3ª infância   como diz o outro: Paz à sua Alma.



Publicado por Tovi às 07:34
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
Há trinta e sete anos foi assim...

{#emotions_dlg.star} O "meu" 25 de Abril (Parte I)

Campo de Instrução Militar de Santa Margarida

Batalhão de Engenharia nº 3

Quarta-feira, 24 de Abril de 1974, 22:55 horas

São quase 11 horas da noite e já entreguei no gabinete do oficial de dia ao QG do CIM (Campo de Instrução Militar) o relatório da ronda acabada de efectuar aos paióis. As temperaturas estão registadas, os cadeados das portas foram verificados, o pessoal está nos postos.

A caminho do nosso quartel, o Martins, o meu fiel condutor da Land Rover, desafia-me para uma partida de snooker: “Só uma partidinha… Hoje estou com uma fezada que lhe ganho”. Concordo e lá vamos para a messe de sargentos. O “barista” dormita encostado ao balcão e, com cara de quem já não esperava mais clientes, diz-nos: “Depressinha que tenho que fechar antes da meia-noite”. Duas minis fresquinhas escorrem-nos pelas goelas abaixo e começo eu. Nas duas primeiras tacadas entram a “1” e a “5”. Giz no taco, aponto à “3”, preparo o efeito… e aparece o Sargento da Guarda ao Quartel. “Quem é o Sargento de Dia ao Piquete?” pergunta ele. Com uma tacada brusca meto a bola no buraco do canto. “Sou eu, porquê?” – respondo-lhe com maus modos. Com o ar mais importante do Mundo diz-me: “O Nosso Segundo Comandante está à tua espera no edifício de Ordem Pública do QG. Vai lá depressa”. Prontos… lá se foi uma vitória certa. Boina na cabeça, blusão apertado e lá vamos a caminho do Quartel-General. Em 10 minutos estamos lá. À porta de armas informam-nos que deveremos ir imediatamente para a Sala de Operações. Entro, faço a continência e com um olhar rápido inventario os participantes na reunião: Um Major, o meu Segundo Comandante; três Capitães, dois do meu quartel e um de cavalaria; seis Alferes, todos do QG. Com ar grave diz-me o Major: “Ó Ribeiro, vamos entrar em prevenção rigorosa e quero que você me organize a defesa e protecção dos paióis. Ponha todos os seus homens do piquete a interditar as estradas de acesso e, a partir de agora, reporta directamente a este grupo de oficiais. Vá lá organizar as tropas e depois encontramo-nos na messe de oficiais do Batalhão”. Faço novamente a continência e respondo: “Sim senhor, meu Comandante. É para já”. Meia volta e em passo rápido dirijo-me para o jeep. O Martins, com o ar mais aparvalhado que já lhe tinha visto pergunta-me: “Então?! Vai haver merda?”. Sem lhe responder entro na viatura e com a mão aponto-lhe a direcção do quartel. Não me apetece falar… Ainda não digeri a ordem que acabo de receber. Tenho a certeza absoluta que aquilo que andamos a falar há uns tempos vai ser hoje.

Entro na caserna da 2ª Companhia de Sapadores e acordo o pessoal: “Está a formar rápido… Quero todos na parada em 5 minutos… Levantem rações de combate e encham os cantis de água… Quero toda a gente municiada e de capacete… Hoje não é exercício nocturno… É mesmo a sério”. Tenho absoluta confiança nos meus homens. São Sapadores de Engenharia, habituados a acompanharem-me em operações de interdição de pistas de aviação e desactivação de explosivos. Gente de barba rija.

Passam vinte minutos da meia-noite. No programa Limite da Rádio Renascença é transmitida a canção "Grândola Vila Morena" de Zeca Afonso. Está a começar o meu 25 de Abril.

 

{#emotions_dlg.star} O "meu" 25 de Abril (Parte II)

Campo de Instrução Militar de Santa Margarida

Batalhão de Engenharia nº 3

Quinta-feira, 25 de Abril de 1974, 00:20 horas

Tenho que ser rápido. Peço ao Martins que me leve para o jeep uma G3, um cunhete de munições e meia dúzia de granadas ofensivas. “E minis?... Não é melhor levar também minis?... Vou pedir ao murcão do barista para me arranjar umas minis!” – e lá vai o barrigudo do Martins tratar dos nossos mantimentos. Para ele, desde que haja minis está tudo bem.

Quando desço a avenida de Santa Margarida em direcção aos paióis vejo uma coluna a partir com destino a Porto Alto. São os gajos de Infantaria que estavam aqui a formar batalhão para partirem para a guerra na Guiné. Se tudo nos correr bem, estes já não embarcam para África.

As tropas estão nos locais previamente definidos por mim, a segurança está montada e ninguém entrará no perímetro dos paióis sem eu autorizar. Volto para o quartel e vou para a messe dos oficias. Aqui já todos sabem o que se passa. Há várias unidades a caminho de Lisboa, as operações militares estão em marcha e são irreversíveis. Nova tarefa é-me atribuída. É necessário organizar uma escolta para ir com as duas Mercedes de transporte de pessoal buscar os sargentos e oficias que moram no perímetro do Campo Militar. Temos que passar por Tramagal, Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, Barquinha… Porra, vai demorar umas duas horas. As ordens são precisas: Toda a gente vem para o quartel, ou para se juntar ao movimento ou para ser preso. Não houve problemas, a maior parte do pessoal já sabia o que se estava a passar. Só o Segundo Sargento da Secretaria do Comando é que ainda me disse: “E se eu desse parte de doente? Não seria melhor?”. Respondi-lhe: “Você é que sabe como quer ir para o quartel: ou na Mercedes ou no meu jeep, só que aqui vai sob ordem de prisão”. Remédio santo. Já estava a subir para a carrinha de transporte de pessoal.

De novo no Batalhão de Engenharia nº 3 onde está tudo em estado de sítio. A porta de armas está barrada com uma máquina escavadora. Consta-se que o quartel de Cavalaria, paredes-meias com o nosso, ainda não aderiu ao movimento. Há tropas em posição de combate debaixo dos alpendres das casernas. No gabinete do Oficial de Dia sou informado que terei que formar uma coluna para ir ocupar a barragem de Castelo de Bode. Já não me sobram homens para esta tarefa. Vou à caserna dos recrutas e é com estes que organizo as tropas. No jeep vou eu, o Martins, meu inseparável condutor e mais um cabo das transmissões que conheço bem. Na Berliet um cabo-miliciano da companhia de instrução e dez soldados. Vai também um moto-tanque dos bombeiros, com quatro homens. Objectivos: Ocupar o posto da GNR de Castelo de Bode, fazer protecção contra sabotagens às instalações da barragem e controlar a circulação de pessoas e viaturas na estrada nacional que a atravessa.

Fazemos uma refeição de atum com cebola, metemos uns casqueiros no bornal e lá vamos nós. É já a meio da tarde que chegamos à gigantesca reserva de água que abastece a região de Lisboa. Constava-se que a Legião Portuguesa tinha um plano para sabotar a barragem em caso de golpe de estado e assim tornar imprópria para consumo a água da capital. Nada de anormal aconteceu. Ainda me lembro da cara de espanto do GNR do posto da barragem aquando da nossa chegada. Por lá nos mantivemos até ao dia 28, sendo depois rendidos por um pelotão do Regimento de Infantaria de Abrantes.

Assim foi o "meu" 25 de Abril... E já lá vão uns anitos...


«Zé Zen» in Facebook >> Hà aqui Mouro que vai ficar com dor de tripas. :))

«João Barbosa» in Facebook >> acredite que me comovi

«Fernando António Fraga Pimentel» in Facebook >> Excelente visão do seu/nosso 25 de Abril.

«Zé Zen» in Facebook >> Caro david, pelo que me toca, um grande OBRIGADO. Abraço.

«Manuel António Sarmento Silva» in Facebook >> Bela efeméride, David. Em 74, nesse dia, já tinha deixado o exército, mas ainda me recordo de que estive a partir das 12:00, aompanhado de muitos populares em frente à Pide. Fazia parte desse grupo a Engª Virginia Moura e seu marido Engº Vital, ambos já falecidos.

«Fernando Roque» in Facebook >> Formidavel descrição dum dia historico, digno de um escritor. Bravo David e Feliz Pascoa.

«David Ribeiro» in Facebook >>  Estes dois textos escrevi-os há já uns quatro ou cinco anos... Lembro-me bem que no dia em que os escrevi abri uma garrafa de Porto Vintage 1975, o primeiro Vintage declarado depois da Revolução de Abril e também o primeiro Vintage engarrafado totalmente em Portugal, por determinação legal. Foi um vinho de Inverno chuvoso, ano quente e seco, em especial no Verão, com alguma chuva no início de Setembro, antes da vindima; Vindima tardia, no início de Outubro; Pequena produção; Quase todas as empresas declararam, embora poucos vinhos sejam excepcionais, revelando-se menos duráveis do que se esperava.



Publicado por Tovi às 00:30
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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011
Morreu Vitor Alves

Morreu Vitor Alves, aquele que sempre considerei ser um dos militares mais honesto, sincero e íntegro no Movimento das Forças Armadas que derrubou o fascismo em 25 de Abril. Foi membro e porta-voz do Conselho da Revolução, foi Ministro dos II e III Governos Constitucionais e conselheiro do então Presidente Ramalho Eanes.

Paz à sua Alma.



Publicado por Tovi às 07:30
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010
O "meu" 25 de Abril (Parte III)

Publiquei também os dois textos sobre «O "meu" 25 de Abril» no fórum da RevistaDeVinhos e os comentários foras estes:

«joao pires» >> Acho este depoimento o maximo. Eu tinha 14 anos, o meu pai, militar de carreira, estava em Luanda, e so o ''conheci'', a partir desta data. Ate entao ''falavamos'' por aerogramas amarelos e cabazes de natal com mangas. A minha mae, atenta, pediu-me para ir buscar a minha irma a Delfim Santos ali a Sete Rios, hoje Universidade Internacional, ou qualquer coisa do genero. Morava no 4 andar da Rua das Furnas, onde sem o saber, mirava diariamente a escola da pide adjacente. Dessa varanda assiti a uma bomba tinha 12 anos, a explosao na embaixada dos EUA e a electricos na Estrada de Benfica 'deselictrificados' por estudantes que apanhavam porrada da pide e mais tarde pelo copcom. Os gritos de 'Viva Portugal' e 'Mata-o' em frente a dita escola ainda estao frescos. Na altura, praticante de Artes Marciais, entendi que algo de importante se passava. Um ano depois tinha lido na chamada ' livraria vermelha' do MRPP ali ao Rato, dezenas de livros politicos entre os quais a versao do Capital. Conheci o Arnaldo de Matos ai e por sorte em 'cruzadas' no chamado 'liceu quartel' do Pedro Nunes escapei a algumas investidas. Tres meses depois estava em Luanda com a familia para me juntar ao meu pai. Regressei um ano depois a fugir e protegido pelas tropas da Unita e comandos Portugueses ate ao aeroporto. Votei pela primeira vez no MRPP, depois... nao interessa... e hoje... ja nao voto. Nao ha 'cor politica' que nao possa agradecer este acontecimento. Se eu soubesse Historia!... Tao, tao IMPORTANTE!... Tovi, nao nos conhecemos, mas 'viajei'... obrigado.

«JTMB» >> Tovi, Fantástico relato do 25 de Abril. Adorei. O meu foi bem diferente. Estava interno no Colégio La Salle em Abrantes. Foi um dia normalissimo, até que a seguir ao jantar pelas 21.00h toca a sirene do colégio e aos microfones mandam todos os alunos para o Teatro. Foi aí que o Irmão Director nos comunicou o que se tinha passado. Fomos dos ultimos Portugueses a saber o que se tinha passado no nosso País.

«Jose_Carlos» >> Tovi e João Pires, Estou muito contente com os vossos post e o desenvolvimento deste tópico, que poderia ser chamado de o "primeiro dia com a LIBERDADE ".

«joao pires» >> Ze Carlos... A VIDA... nao e? E eu quero voltar e nao consigo...

«Jose_Carlos» >> Caro João, Toda a "viagem" tem o seu momento de partida e de chegada. E nisso de "viagens" é sempre bom lembrar-nos de Amyr Kilnk; Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer. Um grande abraço

«xarax» >> Tovi, estou speechless! grande vénia ao teu texto, a ti, e aos outros todos como tu e o que nos ofereceram. o espírito do 25 de abril não desapareceu

«jms» >> Já conhecia estes textos do FB, assim como conheço de alguns encontros o Tovi. Foi com muito gosto que vi que ele foi actor no palco do 25 de Abril. Um abraço

«xarax» >> Jorge, e há uma beleza adicional neste texto. Perceber, como é sempre óbvio mas nem sempre lembrado ou dito, que as produções se fazem com todos os tipos de actores, que há um sítio para as prima donas, para os actores secundários, para os figurantes. O papel de cada um pode parecer irrelevante no contexto das grandes actuações, mas são precisos todos para a peça ir a cena. O Tovi não precisou de acção directa, esteve em castelo de bode a beber minis. MAS, podia ser preciso e ele estava lá. É assim que se define um povo, quando é chamado. Eu acredito no povo português, na sua bondade e generosidade, desejo de justiça e potencial. (detesto expressões como "vamos dizer isto de modo a que as pessoas percebam lá em casa"... não se preocupem, nós cá em casa percebemos, não nos paternalizem) Mas nem sempre nos sentimos chamados. Temos que estar alerta, podemos ser precisos a qq instante.

«jms» >> Sim, é isso. Mas o que nós precisamos é de nos fazermos chamados. Exercer a cidadania - nos deveres e nos direitos.

Obrigado a todos pelas vossas simpáticas palavras. VIVA O 25 DE ABRIL!

«luis ramos lopes» >> Depois de 3 dias sem forum, o texto do Tovi foi o melhor "regresso às aulas" que podia ter tido. Obrigado por o partilhar connosco.

«mlpaiva» >> Já agora, sobre o 25A, eis o post que escrevi, há 5 anos, no tópico "Onde estava no 25 de Abril?" do fórum da NovaCrítica: Pois eu, como já aqui referi, tinha esse dia marcado para exame da carta de condução. Estava, como se dizia, a cumprir o serviço militar no Luso, em Angola. Quando cheguei ao quartel (cerca das 9:00) fui informado: há m**** em Lisboa. Eu era, na ZML (Zona Militar Leste), o responsável pelas comunicações duma região do tamanho de Portugal e tinha a classificação militar de acesso até "muito secreto". Recebia diariamente os relatórios da Pide-DGS. Sabia das movimentações (havia um abaixo-assinado de reivindicações e protestos de oficiais do quadro devido às galopantes regalias dos milicianos que, por ex., com muito menos tempo de serviço, se equiparavam ou até ultrapassavam as suas condições - verdadeira razão do 25 de Abril, o golpe das Caldas, etc.). As vias de comunicação para Lisboa estavam cortadas, não havia televisão, a rádio estava muda... O black-out era total. Mesmo o jornal de grande cobertura (A Província de Angola) só noticiou o evento passados 3 dias... Fui à arrecadação de material de transmissões (de que obviamente era eu o responsável) e levei para casa um rádio de ondas curtas, médias e longas de longo alcance, antenas e um adaptador de corrente alterna/contínua, 220/12V. Almocei tranquilamente e fui fazer o tal exame de condução (a minha preocupação agendada para esse dia). Por atraso do inspector do código, fiz primeiro o exame de condução (outros tempos...). Fiquei liberto às 17:30. Fui para casa, montei as antenas (morava num 2º e último andar), liguei o aparelho de rádio. O sinal era fraco, as interferências muitas. Umas vassouras ajudaram a levantar a antena. A Emissora Nacional nada dizia... Mas consegui sintonizar rádios da África do Sul, a rádio Malawi, a rádio Moscovo, a BBC... Foi por estas que soubemos (eu e o resto do prédio ocupado por oficiais milicianos e suas famílias) o que estava a acontecer. No dia 26, todos éramos os mais bem informados de toda a ZML (uma região maior que a França). Fui, depois, indigitado para sessões de esclarecimento junto dos militares e civis para esclarecer o que eram os direitos do Homem, os diferentes regimes, os partidos políticos... Fiz parte da Comissão de Arrolamento de bens da DGS... (Tive oportunidade de verificar que material de transmissões de que estávamos muito necessitados, havia por lá aos montes... Quando, por razões de serviço, tinha tido de me deslocar à DGS, nunca passei da hall de entrada e era atendido num guichet. Quando fui fazer o arrolamento dos bens, o inspector-chefe veio receber-me à porta e insistiu sempre para ir à sua frente: «Faça o favor, Senhor Alferes... a casa é sua...» Cheguei a Lisboa a 2004-12-23, mesmo a tempo da consoada. O País era outro, bem diferente do que eu deixei e ainda mais diferente do que eu imaginava... Só acrescento: cada vez mais diferente do que eu sonhava...



Publicado por Tovi às 18:09
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Domingo, 25 de Abril de 2010
O "meu" 25 de Abril (Parte II)

Campo de Instrução Militar de Santa Margarida

Batalhão de Engenharia nº 3
Quinta-feira, 25 de Abril de 1974, 00:20 horas

Tenho que ser rápido. Peço ao Martins que me leve para o jeep uma G3, um cunhete de munições e meia dúzia de granadas ofensivas. “E minis?... Não é melhor levar também minis?... Vou pedir ao murcão do barista para me arranjar umas minis!” – e lá vai o barrigudo do Martins tratar dos nossos mantimentos. Para ele, desde que haja minis está tudo bem.

Quando desço a avenida de Santa Margarida em direcção aos paióis vejo uma coluna a partir com destino a Porto Alto. São os gajos de Infantaria que estavam aqui a formar batalhão para partirem para a guerra na Guiné. Se tudo nos correr bem, estes já não embarcam para África.

As tropas estão nos locais previamente definidos por mim, a segurança está montada e ninguém entrará no perímetro dos paióis sem eu autorizar. Volto para o quartel e vou para a messe dos oficias. Aqui já todos sabem o que se passa. Há várias unidades a caminho de Lisboa, as operações militares estão em marcha e são irreversíveis. Nova tarefa é-me atribuída. É necessário organizar uma escolta para ir com as duas Mercedes de transporte de pessoal buscar os sargentos e oficias que moram no perímetro do Campo Militar. Temos que passar por Tramagal, Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, Barquinha… Porra, vai demorar umas duas horas. As ordens são precisas: Toda a gente vem para o quartel, ou para se juntar ao movimento ou para ser preso. Não houve problemas, a maior parte do pessoal já sabia o que se estava a passar. Só o Segundo Sargento da Secretaria do Comando é que ainda me disse: “E se eu desse parte de doente? Não seria melhor?”. Respondi-lhe: “Você é que sabe como quer ir para o quartel: ou na Mercedes ou no meu jeep, só que aqui vai sob ordem de prisão”. Remédio santo. Já estava a subir para a carrinha de transporte de pessoal.

De novo no Batalhão de Engenharia nº 3 onde está tudo em estado de sítio. A porta de armas está barrada com uma máquina escavadora. Consta-se que o quartel de Cavalaria, paredes-meias com o nosso, ainda não aderiu ao movimento. Há tropas em posição de combate debaixo dos alpendres das casernas. No gabinete do Oficial de Dia sou informado que terei que formar uma coluna para ir ocupar a barragem de Castelo de Bode. Já não me sobram homens para esta tarefa. Vou à caserna dos recrutas e é com estes que organizo as tropas. No jeep vou eu, o Martins, meu inseparável condutor e mais um cabo das transmissões que conheço bem. Na Berliet um cabo-miliciano da companhia de instrução e dez soldados. Vai também um moto-tanque dos bombeiros, com quatro homens. Objectivos: Ocupar o posto da GNR de Castelo de Bode, fazer protecção contra sabotagens às instalações da barragem e controlar a circulação de pessoas e viaturas na estrada nacional que a atravessa.

Fazemos uma refeição de atum com cebola, metemos uns casqueiros no bornal e lá vamos nós. É já a meio da tarde que chegamos à gigantesca reserva de água que abastece a região de Lisboa. Constava-se que a Legião Portuguesa tinha um plano para sabotar a barragem em caso de golpe de estado e assim tornar imprópria para consumo a água da capital. Nada de anormal aconteceu. Ainda me lembro da cara de espanto do GNR do posto da barragem aquando da nossa chegada. Por lá nos mantivemos até ao dia 28, sendo depois rendidos por um pelotão do Regimento de Infantaria de Abrantes.

Assim foi o "meu" 25 de Abril... E já lá vão trinta e seis anos...



Publicado por Tovi às 08:00
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Sábado, 24 de Abril de 2010
O "meu" 25 de Abril (Parte I)

Campo de Instrução Militar de Santa Margarida

Batalhão de Engenharia nº 3
Quarta-feira, 24 de Abril de 1974, 22:55 horas

São quase 11 horas da noite e já entreguei no gabinete do oficial de dia ao QG do CIM (Campo de Instrução Militar) o relatório da ronda acabada de efectuar aos paióis. As temperaturas estão registadas, os cadeados das portas foram verificados, o pessoal está nos postos.

A caminho do nosso quartel, o Martins, o meu fiel condutor da Land Rover, desafia-me para uma partida de snooker: “Só uma partidinha… Hoje estou com uma fezada que lhe ganho”. Concordo e lá vamos para a messe de sargentos. O “barista” dormita encostado ao balcão e, com cara de quem já não esperava mais clientes, diz-nos: “Depressinha que tenho que fechar antes da meia-noite”. Duas minis fresquinhas escorrem-nos pelas goelas abaixo e começo eu. Nas duas primeiras tacadas entram a “1” e a “5”. Giz no taco, aponto à “3”, preparo o efeito… e aparece o Sargento da Guarda ao Quartel. “Quem é o Sargento de Dia ao Piquete?” pergunta ele. Com uma tacada brusca meto a bola no buraco do canto. “Sou eu, porquê?” – respondo-lhe com maus modos. Com o ar mais importante do Mundo diz-me: “O Nosso Segundo Comandante está à tua espera no edifício de Ordem Pública do QG. Vai lá depressa”. Prontos… lá se foi uma vitória certa.

Boina na cabeça, blusão apertado e lá vamos a caminho do Quartel-General. Em 10 minutos estamos lá. À porta de armas informam-nos que deveremos ir imediatamente para a Sala de Operações. Entro, faço a continência e com um olhar rápido inventario os participantes na reunião: Um Major, o meu Segundo Comandante; três Capitães, dois do meu quartel e um de cavalaria; seis Alferes, todos do QG. Com ar grave diz-me o Major: “Ó Ribeiro, vamos entrar em prevenção rigorosa e quero que você me organize a defesa e protecção dos paióis. Ponha todos os seus homens do piquete a interditar as estradas de acesso e, a partir de agora, reporta directamente a este grupo de oficiais. Vá lá organizar as tropas e depois encontramo-nos na messe de oficiais do Batalhão”. Faço novamente a continência e respondo: “Sim senhor, meu Comandante. É para já”. Meia volta e em passo rápido dirijo-me para o jeep. O Martins, com o ar mais aparvalhado que já lhe tinha visto pergunta-me: “Então?! Vai haver merda?”. Sem lhe responder entro na viatura e com a mão aponto-lhe a direcção do quartel. Não me apetece falar… Ainda não digeri a ordem que acabo de receber. Tenho a certeza absoluta que aquilo que andamos a falar há uns tempos vai ser hoje. Entro na caserna da 2ª Companhia de Sapadores e acordo o pessoal: “Está a formar rápido… Quero todos na parada em 5 minutos… Levantem rações de combate e encham os cantis de água… Quero toda a gente municiada e de capacete… Hoje não é exercício nocturno… É mesmo a sério”. Tenho absoluta confiança nos meus homens. São Sapadores de Engenharia, habituados a acompanharem-me em operações de interdição de pistas de aviação e desactivação de explosivos. Gente de barba rija.

Passam vinte minutos da meia-noite. No programa Limite da Rádio Renascença é transmitida a canção "Grândola Vila Morena" de Zeca Afonso. Está a começar o meu 25 de Abril.



Publicado por Tovi às 16:43
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
O “meu” 25 de Abril

 Estou muito feliz e honrado porque o Tiago Azevedo Fernandes aceitou o pedido que lhe enderecei para a publicação de “O «meu» 25 de Abril” no seu prestigiado blog “a Baixa do PORTO”. Desculpem lá esta minha vaidade, mas fez-me bem ao ego ver os meus singelos textos no meio de tantos outros escritos por ilustres portuenses.

 Ver “O «meu» 25 de Abril” aqui e aqui.


«XôZé» in ViriatoWeb >> Não concordo que andem a festejar o 25/A com quinze dias de antecedência... Por mais comeventes que sejam as experiências...

«Arp» in ViriatoWeb >> Eu também não concordo! O 25 de Abril de 1974 é para ser celebrado diariamente nos 365 dias do ano, menos nos anos bissextos em que deve ser celebrado 366 dias.

«B de Berarda» in ViriatoWeb >> Mas TU, és um ilustre portuense... ou estou enganada?! Nasceste no Porto, não nasceste?

«Tovi» in ViriatoWeb >> Eu sou portuense de coração... Isto é, não nasci na Inbicta mas por cá estudei desde os primeiros anos do liceu até ao último ano da minha formação académica na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto. Também é nesta cidade que constitui família e onde vivo há mais de trinta anos.

«B de Berarda» in ViriatoWeb >> Entendo o que tu sentes. Comigo, nasci em Lisboa mas bem cedo fui morar para a Linha de Cascais, cresci lá, desenvolvi lá as minhas raízes... quando regressei a Lisboa para viver foi um caos, sentia-me fora do meu habitat natural. Entretanto já lá vão 13 anos e Lisboa mudou muito, hoje sinto-me cá bem... mas volta não volta vou "matar" as saudades lá da Linha!

«Reboredo» in ViriatoWeb >> "...mas volta não volta vou "matar" as saudades lá da Linha!" - Acontece a muita boa gente.

«XôZé» in ViriatoWeb >> ...queques!

«Arp» in ViriatoWeb >> Buéréré! Mais pelos termos, a pose e o tom utilizados que pelo facto de lá terem vivido.

«zézen» in ViriatoWeb >> Eu também sou da linha... Lisboa/Porto

«Liberté!» in ViriatoWeb >> Car@s amantes da liberdade, iniciei, no meu blog pessoal (http://ruasdopensamento.blogspot.com) um projecto que penso que pode ter interesse para alguns de vocês. Propus-me entrevistar alguns jovens sobre o 25 de Abril e, agora, vou publicando as curtas entrevistas. Dêem uma olhadela se vos interessar.



Publicado por Tovi às 08:00
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