"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014
As Praxes Académicas em Portugal

Sobre a vergonha das praxes académicas em Portugal escreveu John Wolf no blog «EstadoSentido»:

{#emotions_dlg.chat} "(...) assumo uma posiçao clara em relação a esta malta profundamente ignorante. Mas há perigos maiores; se deixarmos, estes indivíduos ainda chegam a mandar neste país. Primeiro vão para as jotas e passado pouco tempo tornamos a encontrá-los em secretarias de Estado. Portanto, o desafio das praxes de Portugal não se esgota na tragédia do Meco. Enfrentamos um problema ético, social, cultural e académico de grandes proporções."


«Pedro Baptista» no Facebook >> Ora ai está! E o problema pior é que já lá estão. É esta mesma ganapada acanalhada e xicoespertista que lá está. Esta merda, os filhos dos outros, é que tomaram conta disto. E agora? Como se purga?

«José Costa Pinto» no Facebook >> David Ribeiro, muito se tem escrito sobre esta coisa das praxes académicas. Os antropólogos invocam explicações tradicionais, por exemplo os rituais de iniciação, ou de integração. Outros analistas invocam causas sociológicas, como o retardamento cada vez maior da entrada na vida adulta nas sociedades ocidentais, o qual, misturado com as hormonas e o poder de compra dos protagonistas e com a anomia das condutas estimulada pelos media e pelos dispositivos comerciais que exploram os adolescentes e pós-adolescentes, constituem um coctail explosivo. Tudo isto é provavelmente verdadeiro, como também o é que não há forma viável de proibir isto. Mas há um mecanismo que nunca vi referido e que me parece que pode contribuir, à sua maneira, para o fenómeno. É o da natureza da Universidade. Permita-me que explique o que quero dizer. A universidade é uma instituição vocacionada para a aprendizagem do saber e das tecnologias. Vai-se para a universidade não para se aprender a ser pessoa - quem chega à universidade ou já é pessoa, ou então não é lá que vai aprender a sê-lo - mas para se aprender uma ciência ou uma profissão com uma forte componente conceptual. A aprendizagem emocional e sentimental não faz parte do currículo da universidade. Portanto, quando se vai para a universidade vai-se para um ambiente de aprendizagem competitivo, onde as competências cognitivas vão ser postas à prova, pelo menos em princípio. Ora, a estatística básica diz-nos que 68% das pessoas têm QI's entre 85 e 115. Este último valor chega à justa para assegurar que uma pessoa tenha sucesso nas licenciaturas menos exigentes, mas não é provavelmente suficiente para se ser um engenheiro, um arquitecto ou um jurista de sucesso. Mesmo admitindo um viés para a direita estatística na população dos universitários, a verdade é que a universidade de massas permite que muitos - quase todos - cheguem lá, o que quer dizer que a distribuição dos valores de QI nessa população não será em princípio muito diferente da da população em geral. Parece-me não ser arriscado supor que mais de 50% dos universitários não tenha um QI superior a 115. Bom, onde é que isto nos leva? Em primeiro lugar a um relaxamento das exigências das universidades face aos seus alunos. Eu, que já levo 25 anos de metier, tenho dado conta disso.  Cada vez posso exigir menos, porque a matéria prima é de menor qualidade. Não se trata só da famosa competição dos mass media e da influência dos programas cretinos de TV. É um fenómeno real, que está relacionado com a massificação e com o abaixamento da média do QI. Por outro lado, e em segundo lugar, os estudantes sabem que isso é assim. Muitos deles sentem que não têm capacidade intelectual para estar lá, ou que não têm cérebro para aprender o que se espera e é exigido pelo curso. Sabem que o ambiente de estudo e de reflexão da Universidade não é para eles. E aqui chegamos ao que eu queria apontar como potencial causa, pelo menos parcial, das praxes. As praxes são um mecanismo de adiamento da confrontação com esse ambiente e essas exigências de estudo. Os praxadores - alunos dos anos posteriores, muitos deles repetentes e casos patentes de insucesso académico - vêem nas praxes um mecanismo para substituir a academia pela festa. A vida da praxe é uma alternativa à vida genuinamente universitária. Em vez de bibliotecas, bares. Em vez de testes, provas físicas. Acresce que, para eles, que não têm qualquer autoridade e prestígio académico, a praxe substitui a hierarquia do cérebro pela hierarquia do corpo. Ou seja, a praxe substitui a universidade tradicional por outra coisa, que é uma espécie de comunidade sem nome, mas que partilha com a universidade apenas o ambiente exterior e uma certa simbologia, e onde eles podem ser os melhores. Quantos aos praxados, é óbvio que a maioria deles, assustados perante a perspectiva de serem um fracasso académico, vê a praxe como uma forma de adiar a confrontação com a realidade. E, com franqueza, a praxe confirma-os na ideia, que é para a maioria deles uma secreta esperança, de que ingressaram não na Universidade, mas no tal sucedâneo. E há o efeito de multidão: quantos mais aderirem a essa fantasia, menos fantasia ela é. Não pode haver tanta gente errada assim, pois não? De modo que, para resumir, a praxe convém à maioria dos estudantes. E não é por acaso que os duxs, os veteranos e os repetentes sejam os mais empenhados na manutenção deste estado de coisas. Faz sentido, não?

«David Ribeiro» no Facebook >> Claro que faz sentido, ou não estivéssemos a ler quem muito atento tem estado a estas coisas. Parabéns, caro amigo José Costa Pinto, por este esclarecedor texto.

«José Costa Pinto» no Facebook >> Note que este mecanismo não explica tudo. Explica a invenção da praxe e o porquê da sua popularidade. Os excessos, esses, são perfeitamente explicáveis pelo lado escuro da alma, infelizmente tão presente em toda a humanidade.

«Mario Jeronimo» no Facebook >> José Costa Pinto li com atenção o que não é normal aqui o texto extensivo. Muito boa análise.

«David Ribeiro» no Facebook >> Nos meus primeiros tempos de serviço militar (início da década de setenta do século passado) alguns dos meus fins-de-semana eram passados em Coimbra onde estudavam muitos dos meus amigos e havia praxe, mas bastante "educada" e parece-me que até bastante salutar para jovens saídos de casa dos pais e lançados "à vida". O recolher era para ser cumprido e nunca vi nada comparado com as humilhações que hoje se veem por toda a parte. Outros tempos... outras gentes.

«Fatima Sousa» no Facebook >> No meu tempo em Coimbra as praxes eram a alegria da juventude com base no respeito e educaçao. Hoje sao uma vergonha tanto para os praxantes,os praxados e as proprias faculdades

«Zé Carlos» no Facebook >> Compreendo onde o José Pinto quer chegar.  A explanação faz sentido mas não concordo. Sempre houve praxes. No meu tempo havia 120 vagas para entrar na Católica. Havia três exames á séria. Só entravam os melhores. As médias que a maioria trazia do liceu andavam entre os 14 aos 18. E havia praxes. E os caloiros eram gozados e ridicularizados. E o QI dos alunos era - na altura - bem elevado. O grau de exigência era brutal. Comparada a licenciatura desse tempo ( 6 anos !!)  com as actuais, as primeiras parecem teses de doutoramento. A maioria dos professores eram do regime do antigamente, sanados das universidades públicas. Portanto praxes e exigência acadêmica coabitavam perfeitamente. O  que não havia era violência. Seja física, seja psicológica ou emocional se quiserem. O problema das praxes não é o QI dos alunos, mas antes outra coisa muito pior e políticamente incorreta. O problema das praxes é a herança de um certo 25 de Abril. As "amplas liberdades", eram  assim chamadas se bem se lembram,  levaram a que as bestas, os bandidos e os filhos da puta tivessem acesso livre ao poder político, ás  universidades, ás grandes  empresas. Esse mesmo 25 de Abril desvalorizou coisas muito simples como a ética e o respeito e, em contrapartida, valorizou a boçalidade,  o desrespeito, a revolta sem substrato e a estupidez. As praxes, tal como hoje são praticadas, são a herança nefasta de um certo 25 de Abril, em que os bons  valores foram pura e simplesmente parar á pia.

«José Costa Pinto» no Facebook >> Zé Carlos, o fenómeno (os fenómenos?) da praxe é complexo e não comporta naturalmente uma única explicação. O seu texto refere-se a condições sócio-culturais, ou político-culturais se preferir, que têm o seu lugar como explicação. Referi-me a elas de passagem. Como disse, há mecanismos antropológicos, psicológicos, sociais, políticos e até económicos que devem ser invocados e qualquer pessoa que fale sobre a praxe diz sempre ou quase sempre algo de verdadeiro. Eu pretendi apenas mencionar um de entre esses mecanismos, o qual, repito, não explica tudo. Mas parece-me que há um elemento aqui que deve ser ponderado: a universidade como instituição de exercício e treino da mente é (ou deveria ser) muito exigente. Se pensarmos bem, pouco tempo deveria sobrar a quem anda a estudar a sério para fazer muito mais do que ir às aulas e ler uns livros. Por razões diversas a universidade demitiu-se dessa sua missão e o que fica, o que sobra, é uma enorme quantidade de gente que não tem qualquer vocação para estudar e precisa de se entreter e justificar a sua presença. Que têm eles e elas para mostrar aos que chegam? Apenas a sua condição de residentes calejados e pouco mais. Daí que seja conveniente para elas que a Universidade seja transformada noutra coisa que aquilo que é. Há aqui outras coisas? O 25 de Abril, com o seu cortejo de impotência por parte das polícias e das autoridades e a confusão lamentável da liberdade com a arruaça? Certo. A influência nefasta das universidades privadas, como sugere o Vasco Pulido Valente no seu artigo de hoje do Público? Talvez. A complacência dos reitores e dos professores? Sem dúvida. Os imperativos da biologia, que fazem destes adolescentes tardios predadores perigosíssimos e à margem de qualquer controlo? Sim. A estupidez da 'tradição', uma invenção muito conveniente para justificar o inqualificável? Claro. Todas estas coisas existem. É por isso que é tão difícil acabar com isto. E mais difícil ainda se compreendermos que a praxe 'convém' a quase todos os seus protagonistas. Se não entendermos este facto, qualquer tentativa de intervenção correctivos será votada ao fracasso. Repare-se. Da reportagem da TVI fiquei a saber uma coisa que não sabia: que a praxe, pelo menos na Lusófona, tem uma dimensão regimental próxima da máfia, com normas secretas e até alguma organização económica por detrás. Os membros dessa máfia dão-se ao luxo de alugar casas e de utilizar logística que parece saída de um filme. Isto significa que a coisa está muito para além da espontaneidade de uma arruaça episódica. Ignoro se isto é assim nas outras universidades, mas inclino-me a pensar que deve ser. Para além disso, dá-se um fenómeno que eu reconheço na minha universidade - a UTAD - e que é universal: o alargamento do tempo da praxe, que agora se estende por todo o ano lectivo, de Setembro a Julho. Pense-se só nisso: todo o ano lectivo é tempo de praxe. (não vale a pena negar-se isso, é um facto). Isto quer dizer que a organização subjacente à praxe - hierarquias, rituais, duxs, veteranos, apartamentos, violações, etc - tudo isto ocupa o ano todo. Se isto não é uma universidade paralela, o que é?

«Maria Teresa de Villas-Boas» no Facebook >> Fiz a faculdade no Porto e tudo era alegria e brincadeira. Ninguém morria. Isto não são praxes... são abusos.

«José Costa Pinto» no Facebook >> Duvido, Maria Teresa, que se possa dizer com proveito 'isto é praxe, aquilo não é praxe'. A verdade é que é praxe o que em cada momento o é. A palavra, já agora, vem do grego praxis, que significa 'o que se faz'. O maior erro de quem se debruça sobre este assunto é pensar que pode ser mantido dentro dos limites da 'boa educação'. Não pode, pela sua natureza.



Publicado por Tovi às 07:56
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