"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Comissão de Educação e Ciência do Parlamento

Já que a comunicação social não nos conta o que se passou na Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República num dos últimos dias, aqui fica um relato.

 

   José António Salcedo

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Síntese da minha manhã na Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República, incluindo a sessão de apresentações e discussão assim como as conversas tidas durante o almoço, num ambiente mais restrito.
Dos 45 elementos que integram a Comissão de Educação e Ciência, 24 efectivos e 21 suplentes, estiveram presentes 5. No final, a Comissão entregou a cada participante um pequeno dossier que incluía breves CV dos palestrantes, com fotografia, e uma cópia do meu texto, uma vez que mais nenhum dos palestrantes entregou nada. Como a sessão era pública, participaram também cerca de 110 pessoas previamente inscritas.
Dos 5 convidados para realizar intervenções de 15 minutos cada, fui o primeiro a intervir. Como o texto que escrevi (11 páginas) já tinha sido disponibilizado aqui no FB num post anterior e distribuído antecipadamente na AR, a minha intervenção consistiu em chamar a atenção para alguns dos seus pontos, começando pela definição de “Educar” e do seu objectivo: “Formar pessoas capazes de ser autónomas na vida, o que exige terem aprendido a pensar e a criar valor.” Neste sentido, referi e salientei que o ensino é irrelevante e o que conta é a aprendizagem.
Fiquei satisfeito pelo facto da maior parte das pessoas, ao longo da sessão, terem deixado de falar em ensino e passado a falar de aprendizagem. Referi ainda o que significa “autonomizar intelectualmente” uma pessoa, ou “saber pensar”, e como esses conceitos - com os seus 4 ingredientes, (1) 'Facing Reality', (2) 'Analysing Facts', (3) 'Deciding Autonomously' e (4) 'Facing Consequences', como explico em mais detalhe no texto, se interligam com responsabilidade.
De seguida, iniciei críticas a várias características do sistema de Educação tal como ele existe em Portugal e fui dando sugestões para o seu melhoramento. Comecei pelo modelo de organização, gestão e controlo da Educação, cuja centralização absurda também produz uma rigidez inadmissível nos programas, de seguida abordei a questão da liberdade de escolha que não existe para pais e famílias no que respeita a poderem escolher as escolas mais convenientes para os seus filhos, a descentralização medíocre que o Ministério iniciou e que só tem complicado a vida de escolas e professores, a interferência política e partidária inadmissível nas escolhas de quadros para o sistema de Educação, a instabilidade criada pela excessiva criatividade de Ministros, e, sobretudo, o que está errado na selecção, formação e avaliação de professores, tendo referido sucintamente o que proponho. Referi ainda o que sugiro quando a exames, incluindo o acesso ao Ensino Superior. Por fim, defendi a extinção das Escolas Superiores de Educação e mencionei que no meu texto propunha um programa de projectos-pilotos que poderiam achar interessante.
Propus ainda deixar de resgatar bancos mal geridos e passar a pagar decentemente aos melhores professores, como defendo, correndo com os incompetentes. O representante do Bloco de Esquerda apoia o deixar de resgatar bancos mas quer que esse dinheiro sirva para pagar a todos (competentes e incompetentes, presumo) para além de contratar mais funcionários.
Houve nítidos protestos quando referi que, se o ensino obrigatório constitui um direito dos cidadãos, o ensino universitário não constitui um direito mas sim um privilégio para quem estiver para aí orientado desde que mereça e trabalhe bem. Parece que a Constituição refere que também é um direito mas eu não concordei com o entendimento dos políticos presentes. Se não merecer e/ou não trabalhar bem, um aluno não deve ser admitido ao ensino universitário ou deve ser expulso. Se a Constituição indica o contrário, então a Constituição precisa de ser alterada.
Pedro Duarte, Director da Microsoft, focou-se na utilização de ferramentas de IT na sala de aula, tendo referido que isto não é uma revolução tecnológica mas social. Chamou também a atenção da necessidade de formar professores no novo paradigma de já não serem eles as fontes de informação mais sim tutores dos alunos no seu processo de aprendizagem, uma ideia que eu já tinha referido. Chamou ainda a atenção para a importância de Inteligência Artificial, que irá invadir Educação de muitas formas disruptivas.
Maria João Horta, Sub-Directora Geral da Direcção-Geral da Educação, utilizou a minha definição de Educar e salientou experiências-piloto que já estão a fazer com um certo número de escolas que têm autonomia pedagógica. No entanto, admitiu que não têm autonomia administrativa, nem financeira, nem para contratação de professores ou de quadros, nem para o orçamento. O esforço em curso, no entanto, tem muito mérito. Infelizmente, o sistema político vigente e de gestão da função pública impõe inúmeros bloqueios impostos de cima para baixo.
José Miguel Sousa, Director da EDUFOR, focou a sua apresentação na descrição de novas salas de aula que conceberam no interior no país e que têm funcionado bem para os alunos aprenderem. Gostei muito desta apresentação e dos resultados pedagógicos descritos, que ilustram que se pode fazer muito e bem com poucos meios.
Kyriajos Koursaris focou a sua intervenção no novo paradigma dos professores, como tutores dos alunos no seu processo de aprendizagem. Gostei muito dos trabalhos reportados e das posições expressas.
Os vários representantes dos partidos políticos apresentaram perspectivas sucintas sobre vários pontos, mas confesso que não retive nenhuma. Fiquei com a impressão de que proferiram palavras mais de circunstância do que de substância.
A minha apreciação global:
1- Estou grato ao Alex Quintanilha, meu antigo vizinho em terras de Califórnia (ele em Berkeley, já doutorado e a trabalhar, eu do outro lado da mesma baía de San Francisco, a começar doutoramento em Stanford) pela organização deste evento. É importante discutir Educação com coragem e sem panelinhas nem preconceitos. Obrigado, Alex.
2- Embora a minha definição de Educar tenha sido adoptada ou pelo menos utilizada pelos intervenientes, de um modo geral, diria que a última coisa que o Estado quer é cidadãos com capacidade de pensamento crítico e a saber criar valor. Esse tipo de cidadãos, por definição livres, rapidamente acabaria com as panelas todas do Ministério da Educação e de grande parte da actual estrutura da Administração Central. É evidente que o politicamente correcto é uma arma poderosa de defesa e de manipulação para o Estado. Isto não invalida, claro está, que muitas pessoas no Estado pensem e actuem de forma diferente e esclarecida; infelizmente o seu poder é limitado, pelo que o seu alcance parece ser restrito.
3- Os políticos presentes rejeitaram a minha sugestão de que as universidade deveriam seleccionar os alunos que pretendem admitir com inteira liberdade e responsabilidade. Horror! Isso criaria universidades de primeira e de segunda. Eu referi que neste momento as universidade são todas de segunda, pelo que apenas teríamos a ganhar.
4- As pessoas aceitaram a ideia de que é preciso separar a conclusão do 12º ano de uma possível entrada na universidade. Perceberam que o actual sistema é imbecil e injusto para quem não pretende seguir a via universitária, ou seja, para a maior parte dos alunos.
5- Ninguém quis discutir a reforma do Estado - em matéria de Educação - como proponho no meu texto e abordei na minha apresentação. Parece haver a consciência de que é impossível alterar seja o que for de substância, dado o peso dos sindicatos e os interesses dos partidos políticos. Pelo menos, ninguém parece ter a coragem para o fazer. De facto, a mediocridade propaga-se como um vírus.
A minha conclusão:
1- Gostei de ter participado no evento e agradeço a oportunidade.
2- Quem está no Estado procura - na melhor das hipóteses - fazer o que pode mas não consegue ser disruptivo - ou prefere não ser. De referir, no entanto, que muitos dos esforços em curso têm grande mérito, embora alcance limitado.
3- Nada de substantivo vai mudar em Educação nos próximos anos, por duas razões: (1) Incompetência e parolice do Ministério da Educação, dominado por burocratas e especialistas de Ciências de Educação que se acham o centro do Universo embora nunca tenham feito nada de verdadeiramente útil na vida, e (2) O Ministério da Educação prefere formar uma geração de funcionários bem comportados do que de pensadores críticos e criativos, 'creative critical thinkers', como os designo, pois caso contrário ficaria ameaçado de morte. Entretanto, quer dar ar de moderno.
4- Muitas pessoas precisam de levar forte e feio nas orelhas, pois estão a condicionar o futuro do país. O que se tem feito é mesmo pouco racional, pouco corajoso... e demasiado ‘poucochinho’. Inadmissivelmente 'poucochinho'.
Notas:
1- Agradeço a gentileza da presença da Deputada Margarida Mano.
2- Fui informado de que a Comissão não produz nenhum documento-síntese deste tipo de eventos. No entanto, os vídeos serão disponibilizadas no website da Comissão dentro de um par de dias.
3- Creio que a política é a arte do possível; porém, o futuro não espera por nós. Existe um certo ‘sentido de urgência’ na minha mente que não parece existir na mente dos políticos com quem interactuei.
4- Não existe a mais pequena hipótese do meu entusiasmo sobre estes temas diminuir; sou filho de pai Basco e de mãe Catalã.
5- Fotografia de Jorge Campos.



Publicado por Tovi às 15:33
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