"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Domingo, 13 de Abril de 2014
Estamos como o cão de Pavlov

Visão lúcida de Azeredo Lopes sobre o estado em que nos encontramos.

 {#emotions_dlg.meeting} [JN - Opinião]
Há questões internacionais que saltam de repente para a ribalta, porque  são espetaculares, dramáticas ou perigosas, mas que de repente se  desvanecem, sem se perceber bem porquê.

Olhe-se a Síria, de onde há meses surgiam jorros de notícias, apenas porque, naquela altura, se dava como quase certa a intervenção militar dos Estados Unidos. Alguém hoje fala nela, além de notas de rodapé a que só alguns curiosos ligam? Não. Quer isso dizer que a guerra civil naquele país acalmou ou que a situação humanitária dramática de há alguns meses é agora menos preocupante? Não, claro que não.

O desastre sírio continua e, provavelmente, até se deteriorou ainda mais, com a contaminação do Líbano. Apenas, para nós, o que se passa na Síria deixou de ser relevante, quando ainda há poucos meses o sentíamos como fazendo parte da nossa conceção mínima de humanidade e decência. E, porquê? Porque já nos habituámos a "este" horror em concreto? Porque nos deram outros "produtos" mediáticos para comermos gulosamente? Porque, tendo sido travadas as doses maciças de contrainformação com que nos bombardearam, compreendemos que se Assad é o Diabo, os que o guerreiam são, o mais deles, Diabos ainda piores? Deste menu, cada um escolha uma ou várias das hipóteses: ou até todas.

Estamos a assistir a um processo similar na Ucrânia. Comparada com a da Síria, a situação ucraniana é, numa perspetiva de direitos humanos, um jardim-escola ternurento e delicado. Mas, comparada com a Síria, a Ucrânia diz-nos e afeta-nos muito mais. Desta feita, existe um inimigo, o "nosso" inimigo (a Rússia), ao passo que na Síria fomos de facto assistindo no sofá a um "jogo" em que o "nosso" clube não participava. Na Ucrânia, por outro lado, pressentimos uma ameaça real, com consequências potenciais para o nosso bem-estar e segurança.

Ainda assim, se nos induziram a ficarmos entusiasmados com que ia decorrendo na Praça Maidan, em Kiev, e se pulularam os eufóricos quando as forças do "bem" (o novo poder) escorraçaram as forças do "mal", o entusiasmo foi-se tão depressa quanto tinha chegado. Porque a Rússia, nas circunstâncias sabidas, anexou a Crimeia (para uns) ou aceitou a Crimeia a "pedido" da sua população (para outros).

Porém, depois de um período breve de convulsão, com ameaças e contra-ameaças recíprocas, com negociações em que nenhuma das partes tinha a menor intenção de ceder um palmo que fosse, com decisões de sanções ou decisões que fingiam ser sanções, tudo acalmou. E a Ucrânia foi desaparecendo da agenda.

Estarei porventura enganado, mas parece-me que aquilo que tanto nos excitou na Ucrânia ainda não era o "jogo" propriamente dito: era, antes, o aquecimento dos jogadores antes de a contenda se iniciar. O jogo a sério, a doer (em que cada um mostra pela primeira vez todos os trunfos) está agora a começar.

O tal novo poder "democrático", perante a desestabilização no leste da Ucrânia (com pró-russos a ocuparem edifícios governamentais), ameaça usar a força militar e letal contra os "manifestantes", e uma deputada do novo Parlamento, um sofrível estafermo, declarou em estado de transe que, por ela, os fuzilaria a todos. Os tais "manifestantes", que aliás, como muitos dos "manifestantes" de Maidan, metem medo a um susto, ainda este sábado ocuparam uma esquadra de Polícia, recorrendo para o efeito à força. E a Rússia, à espreita, com os dentes afiados.

Pelo caminho, um duelo pelo menos tão importante como este, mas com forte cheiro a gás, vai sendo terçado nos bastidores. Como se sabe, a Rússia fornece gás a muitos países europeus, e muitos desses países dependem muitíssimo desse fornecimento. E se para a Rússia a perspetiva de perder estes clientes é dramática - porque colapsará economicamente -, para terceiros (nomeadamente, para os Estados Unidos), a perspetiva de ficar com o bolo gasoso é mais do que apetitosa.

Muito pouco se tem falado de toda esta questão, em que o destino da Ucrânia e dos ucranianos é indiferente para os principais atores (EUA, UE, Rússia). A Ucrânia, se tudo isto fosse um jogo de futebol, seria o relvado. E, quando o jogo decorre, alguém se preocupa com o estado da relva?

Nisto tudo, estamos como o cão de Pavlov. Vamos salivando, mas pouco vemos para além do osso meio roído que nos põem à frente dos olhos.


«Jose Antonio Salcedo» no Facebook >> Excelente texto.



Publicado por Tovi às 09:29
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