"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."

Sexta-feira, 24 de Junho de 2022
Adesão da Ucrânia e riscos para Portugal

A opinião de António Martins da Cruz (*)... no DN de 22jun2022.

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1. Dez países bateram à porta da União Europeia. A Turquia, em 1959, seis países dos Balcãs, e há 4 meses Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Dado o conflito, as atenções concentraram-se na Ucrânia. Era politicamente inevitável: invadida por forças russas, ao arrepio da Carta da ONU, violando o Direito Internacional.
A cromática Sra. Leyen anunciou o parecer favorável da Comissão ao estatuto de candidato à Ucrânia (e à Moldávia). Com uma engenhosa redação o aviso não foge ao incumprimento dos critérios de Copenhaga e de Madrid. O Parlamento Europeu, sensor de opiniões públicas e diluído nas bolhas dos grupos europeus, já se pronunciara com entusiasmo.

2. Falta o mais difícil. Obtido o consenso político da cimeira, abre-se o complexo e demorado processo de adesão. Onde não há o "fast track "ambicionado por Kiev e pelo leste. Portugal esperou 8 anos e 9 meses. Como diretor da Integração Europeia no MNE na última fase das negociações e na adesão, partilhei as dificuldades que enfrentámos com Bruxelas e Madrid.
As negociações divididas em 33 capítulos serão conduzidas pela Comissão. Para os abrir e fechar é necessária autorização de cada um dos 27. E aprovação do resultado final. Os estados-membros têm assim 67 hipóteses de bloqueio ou atraso das negociações.
Depois de assinada, a adesão deve ser ratificada pelos 27 Parlamentos Nacionais. Nalguns casos, precedida por referendos. Cada um destes passos tem tempos diferentes. Consoante vontades ou impulsos políticos, pressão de eleitores, alteração das circunstâncias. O Acordo de Associação UE-Ucrânia de 2014 provocou um referendo consultivo nos Países Baixos em 2016. Por 61 por cento os holandeses foram contra.

3. Pela primeira vez um país em guerra é candidato à adesão. Mas há outros, o que obrigará a UE a dar respostas simultâneas a alguns desses pedidos. Retirando prioridade ao desejo da Ucrânia nas diversas fases do processo.
O atual conflito terminará provavelmente antes da adesão efetiva. Mas ignoramos qual será então a situação da Ucrânia: que estatuto internacional, que fronteiras, que territórios ocupados, que governo, que reformas exigidas foram possíveis durante a guerra.
Nos acordos de paz ficarão definidos os contornos da Ucrânia, as suas relações de vizinhança, incluindo com a Rússia. O resultado poderá influenciar resultados eleitorais e a evolução política ucraniana. O ritmo das negociações será tributário dessas condicionantes.

4. As perspetivas do leste europeu e as dificuldades do processo não devem sobrepor-se aos riscos que a adesão da Ucrânia pode representar para Portugal.
Um dos critérios da adesão é a capacidade de a UE assimilar novos membros. 41,5 milhões de habitantes e um PIB per capita de 28,9% da média comunitária tornam Kiev o principal beneficiário dos fundos comunitários: nas ajudas pré-adesão, por definir; na reconstrução após o conflito, estimada há um mês em 600 mil milhões de euros, mas que poderá ser o dobro; nos fundos estruturais estimados em 85 a 100 mil milhões nos primeiros 6-7 anos atendendo aos precedentes. A acrescentar aos 9 mil milhões já prometidos.
Tudo isto, com outras adesões, implicará a diminuição das verbas para Portugal e a exclusão de diversas regiões de alguns fundos. E o aumento dos recursos próprios, das contribuições dos Estados para o orçamento de Bruxelas. Exigências da convergência económica.

5. Terá de ser decidida nova distribuição de votos no Conselho. Benéfica para países com grande população. E redistribuir lugares no Parlamento Europeu, também em função da demografia. Num e noutro caso, Portugal será prejudicado, como sucedeu em anteriores alargamentos.
A entrada da Ucrânia e outros candidatos do leste europeu poderá afetar o eixo Paris-Berlim, mas sobretudo irá deslocar o centro de decisões para leste e afetar capacidades de intervenção do sul da Europa. Esta focalização irá prejudicar interesses portugueses, abrangidos nos atuais equilíbrios que nos têm sido favoráveis.

6. As negociações de adesão irão trazer outros game changers: liberdade de circulação que pode ser limitada no início atendendo aos refugiados (Portugal teve um período transitório de 7 anos imposto pelo Luxemburgo); Política Agrícola Comum, dada a produção ucraniana a reação francesa poderá atrasar a reforma da PAC e o acordo com o Mercosul, importante para o Brasil; a transição energética, a digitalização e outras dinâmicas europeias irão sofrer atrasos e menos financiamentos pelo atraso dos candidatos.
País em guerra, e que ao aderir poderá ficar numa situação idêntica a Chipre (que aderiu na sua totalidade, mas na prática só uma parte está na UE), a Ucrânia irá beneficiar do artigo 42.7 do Tratado. Ou seja, se o conflito se reacender, Portugal terá de prestar "auxílio e assistência por todos os meios ao seu alcance". Obrigação a somar ao artigo 5.º da NATO.
Finalmente, também em política externa, no horizonte de uma UE com 35 membros em 2030, dominada pelo leste, reforçar-se-á a tendência para acabar com a regra da unanimidade. Somos um país com uma política externa universal, que nenhum Estado do centro e leste europeu tem. A alteração será contra os interesses portugueses no mundo. Além de retirar eficácia e credibilidade a uma política externa europeia.

7. No Conselho Europeu de 23 e 24 de junho irá ser concedido à Ucrânia o estatuto de país candidato. Menos de 4 meses depois de solicitar a adesão. Portugal esperou quase dois anos. Seguir-se-ão tempos difíceis. O consenso desta decisão sobre a candidatura, a par da construção da Europa num quadro geopolítico diferente, não podem afetar a defesa do interesse nacional. Que é o objetivo prioritário da política externa, antes de outros valores ou princípios. Por isso o primeiro-ministro teve uma leitura correta desses interesses quando alertou para as dificuldades desta adesão. Bem como o secretário de Estado dos Assuntos Europeus nas raras intervenções que tem tido.
A política externa, onde está a política europeia, não tem estados de alma.

(*) Embaixador, Antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros



Publicado por Tovi às 07:33
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Sábado, 7 de Maio de 2022
Rinat Akhmetov... o dono da Azovstal

 Quem é o oligarca ucraniano dono da Azovstal (e de meio país)
(Bruno Faria Lopes, na Sábado - 5mai2022)

img_980x653$2022_05_04_22_54_09_671428.jpgO homem mais rico da Ucrânia, que promete usar a sua fortuna para reconstruir Mariupol, tem origem humilde e uma ascensão tão meteórica quanto suspeita. Há seis meses estava em guerra aberta com Zelensky - a invasão russa parece tê-los unido temporariamente.
Parte da onda de apoio que levou o comediante Volodomyr Zelensky à presidência da Ucrânia em 2019 assentava numa promessa: fazer frente aos oligarcas do país. Nenhum é maior do que Rinat Akhmetov – a sua fortuna, citada pela Forbes em mais 7 mil milhões de dólares, supera o total dos três bilionários seguintes no ranking. Mas, se há apenas seis meses Zelensky e Akhmetov travavam uma batalha feroz por influência, a invasão russa parece ter congelado as diferenças. Akhmetov tem elogiado o Zelensky, criticado o regime de Moscovo do qual era próximo – e promete ajudar a reconstruir Mariupol, onde se trava a batalha pelo último reduto ucraniano no complexo da Azovstal, pertença do oligarca. 
Rinat Akhmetov, 55 anos, é dono de um conglomerado enorme (System Capital Management) para a escala e o desenvolvimento da Ucrânia. Os negócios vão dos metais às minas, da energia à banca, do imobiliário às telecomunicações, do futebol (é dono do Shakhtar Donetsk) aos media (tem mais do que uma estação de TV). Ao todo emprega mais de 200 mil pessoas, quase 2% do que era a população empregada antes da guerra. A fortuna gerada anos após ano por este império dá margem para Akhmetov fazer o que os oligarcas tipicamente fazem: gastos sumptuosos que saltam para os media internacionais.
Em 2011, por exemplo, Akhmetov comprou por 136,4 milhões de libras um apartamento em Londres, que os media britânicos descreveram como uma "fortaleza" com janelas à prova de bala e segurança feita por ex-fuzileiros. Já em 2020 juntou ao seu portfolio imobiliário uma mansão de finais do século XVIII situada na Riviera francesa – com um dos mais importantes jardins botânicos do mundo, segundo citação do antigo proprietário Financial Times – por 200 milhões de euros. O clube de futebol Shakhtar Donetsk – que venceu a Liga Europa e foi treinado por portugueses – é outra das extravagâncias de Akhmetov.
De origens humildes – o pai era mineiro, a mãe trabalhava numa loja – Akhmetov trabalhou nos anos 80 para um milionário com ligações ao crime, Akhat Bragin. Ao longo do percurso de Akhmetov são várias as referências ao seu envolvimento em actividade criminosas nos anos 80 e 90, de lavagem de dinheiro a fraude. O bilionário, que sempre negou esse envolvimento, foi investigado mais do que uma vez, mas nunca foi julgado pela justiça do seu país, um dos mais corruptos da Europa. A origem da vasta fortuna é difícil de precisar. O seu patrão Bragin morreu em 1995, com uma bomba no seu carro dentro do estádio do Shakhtar Donetsk, de que era presidente. Em 2000 fundou a System Capital Management Group e, por entre investigações judiciais que iam caindo, o músculo da empresa foi crescendo.
Com a assunção da fortuna veio o perfil mais público do bilionário e a participação na política. Rinat Akhemtov não foi só um grande financiador do Partido das Regiões, o partido pró-russo que dominou a vida política do país entre 2006 e 2014 – foi Akhmetov que fez a ponte entre o norte-americano Paul Manafort e o político Viktor Yanukovich. Manafort, um consultor político e lobista que dirigiu a campanha de Donald Trump em 2016, prestou serviços ao partido ucraniano, que caiu na revolução de 2014.     
A guerra entre separatistas russos e forças ucranianas no leste da Ucrânia (Donbas) em 2014 e a invasão russa este ano destruíram uma parte substancial dos negócios e da fortuna estimada de Akhmetov (que terá caído para menos de metade), que foi montando organizações de apoio humanitário na região leste. Em novembro do ano passado, Zelensky – que reteve pagamentos a uma das empresas do bilionário e preparava legislação para o afastar dos media – acusou Akhmetov de estar envolvido numa conspiração com apoio russo para o afastar do poder, coisa que o oligarca negou com veemência. Meses depois o cenário mudou radicalmente para os dois homens e o país a que pertencem: ambos exigem publicamente a retirada russa e a recuperação do território da Ucrânia.

 

 

  Esta manhã autoridades no território separatista moldavo da Transnístria denunciaram novos ataques... naquilo que eu considero o "novo" polo de conflito no Leste Europeu.
"...novos ataques de 'drones' de origem desconhecida."
"...foram lançados dois engenhos explosivos a partir de um 'drone'..."
"...ninguém morreu ou ficou ferido..."
"...foi o segundo ataque na cidade de Voronkovo..."
"...situação na Transnítria começou a ficar tensa no final de abril..."
"Kiev alegou que era uma operação de 'bandeira falsa' da Rússia para culpar a Ucrânia..."
"...a Rússia descreveu os incidentes como uma tentativa de arrastar estes territórios para o conflito armado na Ucrânia."

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  Jose Antonio M Macedo - Como um paiol na Transnístria (o maior da Europa) está a "pôr os russos nervosos". Tem mais de 20 mil toneladas de material guerra, de calibre soviético, que poderá resolver os problemas das forças ucranianas. A situação na região pode inclusive criar um novo palco de conflito na Europa de Leste, segundo o major-general Agostinho Costa.

 

 

  Efeito colateral do conflito Rússia-Ucrânia
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  Edgar Morim (filósofo e ensaísta francês) no DN de hoje
Captura de ecrã 2022-05-07 140937.jpgVivemos uma paz guerreira, os nossos corpos instalados na paz, os nossos espíritos entre bombas e escombros. Atacamos um inimigo com palavras e ele ataca-nos com ameaças, mas nós dormimos numa cama e não num abrigo. E, no entanto, participamos na verdadeira guerra sem nela termos entrado, mas fornecendo-lhe armas e munições. (…) A estratégia do exército russo é implacável. Ela é filha da estratégia de Jukov, durante a Segunda Guerra Mundial, dando o protagonismo a formidáveis bombardeamentos de artilharia, não só contra o exército inimigo, mas também contra as cidades a tomar acabando com o esmagamento total pela artilharia pesada da capital do Reich, Berlim. Como todos os exércitos vitoriosos, mas mais terrivelmente no avanço soviético na Alemanha, assassinatos e violações multiplicaram-se. Nós soubemo-lo na altura, mas evitámos denunciá-los, explicando-os como uma vingança pelo imenso sofrimento e mortes infligidos pela Alemanha nazi às populações soviéticas. No que respeita à Ucrânia, povo se não irmão pelo menos primo próximo do povo russo, podemo-nos perguntar se assassinatos e violações se devem à desordem de certas tropas, à fúria da derrota ou a uma vontade de aterrorizar. (…) O que parece provável agora, salvo um golpe de estado no Kremlin ou um golpe militar fatal ou ainda um golpe de teatro diplomático (cessar-fogo, compromisso de paz), é que a guerra está para durar e intensificar-se com o contributo cada vez mais abundante das armas ocidentais e as retaliações cada vez maiores da Rússia. (…) Estamos na escalada da desumanidade e no colapso da humanidade, na escalada do simplismo e no colapso da complexidade. Mas, sobretudo, na escalada em direção à guerra mundializada e no colapso da humanidade para o abismo. Conseguiremos escapar a esta lógica infernal? (…) Por muito repugnantes que sejam as superpotências a diversos títulos, o apaziguamento dos seus conflitos é uma condição sine qua non para evitar os desastres generalizados. Assim, devemos aspirar a um compromisso. A humanidade não ficaria a salvo; ganharia uma prorrogação e, talvez, uma esperança.

 


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As notícias desta manhã dizem-nos que as tropas de Putin continuam a atacar a fábrica de Azovstal, em Mariupol, com tanques e artilharia. E alguém (não é importante quem) dizia na 5.ª feira [5mai2022], num canal de tv nacional, que “os militares não são feitos para se renderem, mas a função do sacrifício e de mobilização de um dos lados já surtiu efeito”, pelo que até seria desejável que estivesse já a ser negociada a saída dos militares, alegadamente do batalhão Azov, “sem este estrondo todo”. Também na tarde de hoje [7mai2022] seis mísseis atingiram a cidade portuária de Odesa, segundo informação da porta-voz do comando militar do sul da Ucrânia à emissora pública do país. Natalia Humeniuk disse que quatro mísseis atingiram uma fábrica de móveis numa área residencial, enquanto os outros dois atingiram uma pista de aviação já anteriormente danificada.

 

  16h26 (GMT) 7mai2022
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A vice-primeira-ministra da Ucrânia, Iryna Vereshchuk, acaba de anunciar que todas as mulheres, crianças e idosos foram retirados do complexo siderúrgico de Azovstal.
  David RibeiroA Rússia também confirmou que a evacuação de Azovstal foi concluída, mas há que ter algum cuidado com estas informações, visto que os esforços para retirar civis de Azovstal, em Mariupol, estão a ser coordenados pela ONU e pela Cruz Vermelha e até ao momento ainda nenhuma destas organizações confirmou o que foi noticiado. O presidente ucraniano admitiu, este sábado, que a Ucrânia está a preparar a retirada de todos os militares da fábrica Azovstal, último foco de resistência armada à invasão russa na cidade. Na última mensagem publicada nas redes sociais, Zelensky confirmou que todos os civis foram retirados da Azovstal e que, a seguir, seguem-se os militares feridos e médicos.



Publicado por Tovi às 07:02
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2022
Rússia-Ucrânia... danos colaterais em Portugal e na UE

  Sondagem da Aximage publicada ontem no JN, DN e TSF
Portugueses sentem perda no poder de compra e estão mais pessimistas
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  Em finais de março deste ano o Banco de Portugal via quatro canais de impacto da guerra na Ucrânia, agravados pelas sanções como resposta ao conflito liderado pela Rússia. O rendimento disponível das famílias vai descer, as empresas vão ter dificuldades em obter produtos (e podem mesmo ter de parar), o comércio entre países está limitado e, acima de tudo, há incerteza. Estes são os quatro canais de impacto da guerra que é travada na Ucrânia por parte da Rússia, intensificados pelas consequências das sanções económicas.

 

  A União Europeia está a pedir a europeus que conduzam menos, desliguem o ar condicionado e trabalhem de casa pelo menos três dias por semana para reduzir a dependência de petróleo e gás natural russo. De acordo com a Comissão Europeia, as medidas - que foram delineadas pela Agência Internacional de Energia - vão permitir a cada família poupar em média cerca de 500€ por ano. Se todos os cidadãos europeus aderirem aos nove pontos do plano "Playing My Part" (em português, "Fazer a Minha Parte"), será possível poupar petróleo suficiente para encher 120 super-tanques e gás natural para aquecer 20 milhões de casas. "Pessoas em toda a Europa ajudaram a Ucrânia, fazendo doações ou ajudando refugiados diretamente, e muitos gostariam de fazer mais. A maioria das famílias também está a enfrentar contas de energia mais altas por causa da crise energética exacerbada pela guerra. Usar menos energia não é apenas uma maneira imediata de os europeus reduzirem as suas contas, mas também ajuda a Ucrânia, reduzindo a necessidade de petróleo e gás russos, ajudando assim a reduzir os fluxos de receita que financiam a invasão", argumentam a UE e AIE em comunicado.


Francisco Bismarck - A internacionalização do petróleo está, como é óbvio, fora de questão.
David Ribeiro - Está cá a parecer-me que a malta do Golfo esfrega as mãos de contente.
Jorge De Freitas Monteiro - David Ribeiro, sim, e também os americanos com o gás

 

  Berlim irá enviar equipamento e armamento pesado para substituir o que países aliados entreguem, pelo seu lado, à Ucrânia. A Eslovénia deverá enviar para a Ucrânia - e depois receber da Alemanha - cerca de 40 carros de combate. A Alemanha está no meio de um debate febril sobre o que o Governo está a fazer para entregar armas à Ucrânia – com o chanceler a ser alvo de críticas dos partidos da sua coligação e de parte do seu partido. Uma notícia do diário de grande circulação Bild dizendo que o chanceler, Olaf Scholz, recebeu da indústria alemã de armas uma lista do que poderia ser entregues à Ucrânia e retirou dela o armamento pesado como tanques e obuses lançou mais achas para a fogueira. De seguida, no entanto, fontes governamentais citadas pela agência DPA diziam que o país está a preparar-se para enviar este armamento pesado a aliados da NATO para substituir material que estes enviem directamente à Ucrânia. A Alemanha evita assim o envio directo de armas pesadas à Ucrânia.

 

  O índice de preços no produtor na Alemanha registou um aumento histórico de 30,9% em março, um recorde desde 1949, quando este indicador começou a ser publicado, disse quarta-feira a agência de estatística alemã Destatis. O ponto mais alto do indicador reflete “as primeiras consequências da guerra na Ucrânia”, acrescentou a fonte. Em fevereiro, o aumento anual tinha sido de 25,9% e em janeiro de 25%.

 

  A Comissão Europeia propôs esta sexta-feira uma alteração ao orçamento da União Europeia (UE) para 2022 - reforço de 99,8 milhões de euros em autorizações e orçamento a ser aumento em 176 milhões de euros em pagamentos - para assegurar o apoio às pessoas que fogem da guerra da Ucrânia, causada pela invasão russa, visando principalmente ajudar os Estados-membros recetores. Tendo em conta as novas verbas comunitárias, bem como as possibilidades de reafectação, “o montante total do financiamento a ser disponibilizado para a migração e gestão de fronteiras é de 400 milhões de euros”, explica Bruxelas. Esta verba total visa, principalmente, “ajudar os Estados-membros mais afetados a fazer face aos primeiros custos de receção e registo de pessoas que fogem da Ucrânia”, adianta a Comissão Europeia. A proposta esta sexta-feira apresentada para alterar o orçamento comunitário deste ano tem agora de ser aprovada pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros da UE no Conselho.

 

  O ministro do Ambiente português considerou que a dependência da Europa em relação ao gás oriundo da Rússia é um “garrote” à atividade económica, sendo essa subordinação alvo de “chantagens inaceitáveis” e uma “ameaça à segurança”. “A invasão da Ucrânia [por parte da Rússia] mostrou a fragilidade da Europa em relação ao setor energético, a dependência do gás russo é um garrote à nossa atividade económica que é aproveitada, inclusivamente, para chantagens inaceitáveis de um regime ditatorial às democracias europeias, é uma ameaça à segurança da Europa”, disse Duarte Cordeiro.

 

 

Sem dúvida alguma...  
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Publicado por Tovi às 07:09
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2022
Tropas portuguesas partem para a Roménia

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Partiu hoje para a Roménia uma primeira força nacional destacada para fortalecer a segurança do flanco leste do espaço NATO. Esta força é constituída por 221 militares - vinte são de equipas de operações especiais, os restantes pertencem à companhia de atiradores que nas últimas semanas viu reforçado o treino em defesa antiaérea. Esta viagem estava prevista apenas para o final do ano, mas a situação de agravamento do conflito na Ucrânia obrigou à antecipação. Parte do material de guerra a utilizar durante a missão zarpou esta semana do Porto de Leixões, com recurso a transportadoras privadas, visto o Governo não ter recursos próprios suficientes para assegurar toda a operação.

  Agência Lusa – 9h25 de 15abr2022
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Militares portugueses já partiram para missão da NATO. No final da cerimónia, que decorreu no aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que a força militar portuguesa que hoje partiu para a Roménia vai prevenir e defender a paz no leste da Europa e adiantou que o primeiro-ministro, António Costa, a visitará dentro de um mês. Além do Presidente da República, a cerimónia contou com a presença da ministra da Defesa, Helena Carreiras, do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, almirante António Silva Ribeiro, e dos chefes do Estado-Maior do Exército, Armada e Força Aérea. Num breve discurso, Marcelo Rebelo de Sousa, Comandante Supremo das Forças Armadas, salientou a importância desta missão da NATO que esta força militar destacada vai cumprir na Roménia no contexto da guerra na Ucrânia. “É uma missão já prevista e agora consolidada, projetada e reforçada num país amigo, aliado – a Roménia - no quadro de uma aliança defensiva e não ofensiva. Uma aliança que não ataca, que está preparada para prevenir, preservar e defender a paz. É essa também a vossa missão”, sustentou o Presidente da República.

 

 


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Na madrugada de ontem [14abr2022] o cruzador Moskva, navio-almirante russo da frota do Mar Negro, terá sido severamente atingido por mísseis ucranianos. A Rússia confirmou que o navio está "gravemente danificado", mas fala unicamente num incêndio a bordo, cujas causas ainda estão a ser determinadas e que a tripulação foi completamente evacuada “como resultado da detonação de munição causada pelo fogo”.

Nesta mesma noite o gabinete de Volodymyr Zelensky admitiu que uma parte da 36ª Brigada Marítima, que estava a defender Mariupol, foi capturada durante uma tentativa de romper o cerco russo. A admissão foi feita por Alexei Arestovich, conselheiro do gabinete do Presidente da Ucrânia, e noticiada pelo canal ucraniano Suspilne. De acordo com Arestovich, houve um momento em que os combatentes da 36ª Brigada se separaram - uma parte juntou-se às forças do Batalhão Azov, e outra parte ficou isolada noutro local da cidade. Continuaram a combater separados, e os militares que a Rússia alega que se renderam ontem fazem parte do grupo que estava isolado. "Estes são os que estavam sozinhos. Bem, não sozinhos, mas, por assim dizer, que seguiram noutra direção - estavam sob ataque da artilharia [russa] e ataques aéreos, perderam muitas pessoas e foram feitos prisioneiros durante a batalha", disse Arestovich. O mesmo responsável ucraniano negou, porém, que se trate de um milhar de combatentes, contrariando as alegações russas. "São muito, muito menos", garantiu. "Essa é uma mentira completa várias vezes exagerada", disse Arestovich. Mas a verdade, admitiu, é que "eles [russos] apanharam-nos". O conselheiro da presidência da Ucrânia não avançou um número alternativo de quantos militares terão sido capturados em Mariupol.
Mas como mais uma vez podemos estar perante “informação” ou “contra-informação”, o melhor é não lançar muitos foguetes antes do fim da festa.


Captura de ecrã 2022-04-14 153312.jpgO Ministério da Defesa russo diz que “a fonte do incêndio no 'Moskva' está localizada; não há chamas visíveis; as explosões de munições pararam". Do outro lado da barricada o chefe da administração militar regional de Odessa, Maksym Marchenko, tinha dito ontem à noite que “forças ucranianas atingiram o navio de guerra russo com mísseis 'Neptuno', causando danos graves (…) uma poderosa explosão de munições derrubou o cruzador e este começou a afundar-se". Cada um com a sua verdade… eu vou esperar mais uns dias para ver o que aconteceu realmente no Mar Negro.

  Ao fim do dia de ontem [14abr2022] foi notícia na Sky News que o navio de guerra Moskva afundou enquanto era rebocado no meio de uma tempestade, segundo a agência de notícias TASS que cita o Ministério da Defesa russo. Alegadamente... mas parece que desta vez é mesmo verdade que o navio-almirante da frota russa no Mar Negro foi ao fundo.

 


20220414140420_d1b57e3c11023a0bbae8270003e206b2935O governo ucraniano continua a negar as acusações de Moscovo que dizem ter a Ucrânia enviado dois helicópteros pela fronteira para bombardear uma cidade na região de Briansk, no sul da Rússia, ferindo sete pessoas, incluindo uma criança. Em resposta as tropas de Putin garantem ter atingido uma fábrica “militar” nos arredores de Kiev na quinta-feira [14abr2022], usando mísseis Kalibr de longo alcance baseados no mar.

 

  Como diz o jornalista António Capinha no seu artigo de opinião de hoje no DN - As batalhas do Donbass – é nesta região ucraniana que se irá determinar a configuração geopolítica futura daquela zona do mundo.
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  É assim que estamos em Mariupol
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2022
Reflexões sobre a derrota do Ocidente no Afeganistão

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Diz-nos José Manuel Neto Simões, Capitão-de-fragata na reforma, num dos seus vários artigos de opinião publicados no DN sob o título “Reflexões sobre a derrota do Ocidente no Afeganistão”:

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“A retirada dos EUA e dos seus aliados do Afeganistão materializou a derrota do Ocidente em declínio.” (…) “…a debilidade do acordo de Doha, promovido por Trump, foi explorada pelos talibãs, de forma exímia, empregando uma estratégia bem delineada com o apoio da maioria étnica (pashtun) e dos serviços secretos paquistaneses. O foco foi mantido na subversão das instituições e da população, com uma campanha comunicacional sofisticada. Foram ainda decisivas a escolha do período do ano favorável à ofensiva associada à deficiente transferência de autoridade para as forças afegãs.” (...) “…a forma como o processo foi conduzido gerou animosidade nos aliados com reflexos no futuro da NATO e na política de defesa europeia numa fase da dissonância transatlântica.” (…) "A perda de influência do Ocidente corresponderá ao aumento da influência das potências regionais - China e Rússia com interesses divergentes -, que vão determinar o equilíbrio na sua esfera de influência e na relação de forças entre a Índia, o Irão e o Paquistão.”



Publicado por Tovi às 07:26
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Sábado, 18 de Dezembro de 2021
Sondagens de hoje... para as Legislativas2022

Foram hoje conhecidas duas sondagens para as Legislativas2022, uma da Aximage (para o JN , DN e TSF) e uma outra da Pitagórica (para TVI e CNN Portugal).
Sondagem 18dez2021.jpg
Pitagórica 18dez2021.jpg

No gráfico seguinte poderão ver todas as sondagens conhecidas nos dois últimos meses, comparando-as com os resultados das eleições Legislativas2019, bem como a média truncada  (eliminando os valores mais altos e mais baixos de cada uma delas) das sondagens deste período.
Sondagens dos últimos dois meses 18dez2021.jpg



Publicado por Tovi às 17:12
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Segunda-feira, 19 de Julho de 2021
PS a descer... Bloco e Chega quase empatados
Sondagem da Aximage (para JN, TSF e DN) conhecida hoje:
PS – 37,6%
PSD – 25,2%
BE – 7,8%
Chega – 7,7%
I. Liberal – 5,5%
CDU – 4,8%
PAN – 4,6%
CDS – 0,9%
 
   Evolução dos estudos de opinião nos últimos três meses

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  O que ressalta da leitura da evolução dos estudos de opinião dos últimos três meses, comparando com o resultado das Legislativas2019, é o seguinte: PS e PAN com uma tendência de subida; PSD, BE e CDU em ligeira queda; Chega e Iniciativa Liberal em grande ascensão; CDS em grande queda.



Publicado por Tovi às 08:41
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Segunda-feira, 1 de Março de 2021
Direita ultrapassa PS graças ao fôlego dos liberais
A sondagem da Aximage conhecida hoje (para JN, DN e TSF - O trabalho de campo decorreu entre 17 e 20fev) dá-nos os seguintes valores:
PS – 37,6%
PSD – 26,5%
BE – 7,7%
Chega – 6,5%
CDU – 5,8%
I.Liberal – 5,7%
PAN – 4,0%
Livre – 1,3%
CDS – 0,8%
 
E a evolução das sondagens nos últimos dois meses fica assim:

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Publicado por Tovi às 10:36
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2020
Faz hoje 45 anos...

...que acabou a brincadeira, também conhecida por PREC   
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   DN de 25nov1975
Quando esta 2ª edição do DN saiu, já o PREC estava moribundo.
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   Mário Soares em "Um político assume-se"

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“O 25 de Novembro de 1975 foi extremamente importante para Portugal. Foi o virar de uma página, que podia ter sido trágica, e a restituição da Revolução de Abril à sua pureza inicial: a democracia pluralista de tipo ocidental, num Estado de Direito, civilista, respeitador dos Direitos Humanos e com uma dimensão social, marcada pela igualdade de oportunidades.” (Mário Soares em “Um político assume-se” - 2011)



Publicado por Tovi às 10:59
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020
Os piores dias na vida política de António Costa

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   Resumo do artigo de João Pedro Henriques - DN de 17set2020

22mai2003 - Um jovem juiz de instrução, Rui Teixeira, foi ao Parlamento para interrogar, e depois prender preventivamente, um deputado do PS, sob a horrorosa suspeita de pedofilia. António Costa era na altura líder parlamentar do PS.

9jun2004 – Sendo Costa o número dois na lista do PS ao Parlamento Europeu, viu o número um da lista, António Sousa Franco, morrer vítima de ataque cardíaco, depois de uma muitíssimo agitada ação de campanha na lota de Matosinhos, onde o cabeça-de-lista serviu de arma de arremesso numa guerra de fações que estalara no PS-Porto.

17jun2017 - Um incêndio em Pedrógão, alastrou a vários concelhos vizinhos, matou 65 pessoas, a maior parte das quais (47) apanhadas dentro de carros a fugir na Estrada Nacional 236.

16out2017 - Incêndios ciclópicos e caos na Proteção Civil, com 45 pessoas a morrerem vítimas de dezenas de incêndios em 27 concelhos da região centro (sobretudo os distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco, Aveiro e Leiria).

17set2020 - Mais uma vez ignorando conselhos de quem o rodeia, António Costa insistiu em manter-se na comissão de honra da recandidatura de Filipe Vieira à direção do Benfica, só que este decidiu "demitir" o PM da comissão de honra. A notícia soube-se perto das 14h00.



Publicado por Tovi às 10:46
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2020
Marcelo Rebelo de Sousa na Feira do Livro do Porto

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Depois da apresentação deste muito interessante livro o Presidente da República foi visitar todos os stands da Feira do Livro do Porto… e a meio da visita aconteceu o inesperado: Uma cidadã interpelou-o sobre a situação política, económica e social do País, durante mais de 20 minutos, tendo Marcelo Rebelo de Sousa se “aguentado à bronca”. Vejam os noticiários das tv’s e leiam os jornais, que seguramente vão dar grande ênfase a este facto.

 

   No Observador
Interpelado por cidadã descontente, Marcelo responde: "Diga aos portugueses para votarem noutro Governo". Foi esta resposta que Marcelo Rebelo de Sousa deu a uma cidadã que acusou o Governo de não ajudar os micro-empresários. "Porquê?", perguntou. "Porque os portugueses votaram neste Governo", respondeu.
Tudo aqui

   No DN
"Conseguiria viver com 300 euros por mês?". Mulher deixa Marcelo sem resposta. Presidente da República aconselhou os portugueses insatisfeitos a "votar noutro governo".
Tudo aqui

   No Jornal i
Microempresária interpelou chefe de Estado e desafiou Marcelo a pôr “a andar esta gente que nos está a fazer morrer”, referindo-se ao Governo de António Costa.
Tudo aqui



Publicado por Tovi às 20:54
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Sábado, 22 de Agosto de 2020
Revolução Liberal de 1820... no Porto

   Rui Moreira, no Diário de Notícias de hoje

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Celebramos, este ano, o segundo centenário da revolução liberal de 1820. Uma revolução inevitável pelo contexto político-social da época, e que deu início à difícil, lenta e tormentosa fundação do Portugal moderno.
Portugal sobrevivera, improvavelmente, às invasões francesas e à Guerra Peninsular (1807-1814) mas o preço era, passados alguns anos, intolerável. O país estava mergulhado numa profunda crise política, económica e social, e vivia debaixo de uma dupla tutela.
Transformara-se num protectorado dos ingleses que, depois de terem derrotado as tropas napoleónicas, liderando a resistência portuguesa, mantinham a administração do território nacional, bloqueando as carreiras no exército (refundado por Beresford) e condicionando o funcionalismo público. Transformara-se, também, numa colónia do Brasil, elevado à categoria de reino através de uma nova identidade pluricontinental, onde a corte permanecia, onde o comércio e os portos se abriam a outras potências.
Sem a riqueza do Brasil, a contribuição que antes equilibrara a economia portuguesa sempre dependente da agricultura de subsistência, sem alternativa ou voz na nova ordem europeia, resultante do Congresso de Viena, o país via-se condenado à ruína e privado da sua soberania.
A contraversão da relação colonial com o Brasil, a subjugação a Inglaterra e a crise económica consequente, com impacto na indigente administração que resistira às invasões, gerou o clima propício ao descontentamento.
As ideias da revolução francesa, que tinham encontrado acolhimento em sectores da burguesia urbana ainda antes das invasões voltavam a fervilhar, e a presença dos ingleses, que tinham assentado arraiais com o seu ideário liberal, também ela contribuía para que se questionasse o regime a que mais tarde se chamou de absolutista.
Esses ventos continuavam a abalar a Europa, apesar da mão de ferro da Santa Aliança, concebida no Congresso de Viena, em que as potências que haviam derrotado Napoleão concordaram em resgatar os limites territoriais anteriores à revolução francesa que tinham sido dissolvidas pelas guerras, e restaurar a ordem absolutista do Antigo Regime, pela mão de Metternich.
Em Janeiro de 1820, uma revolta militar tinha imposto o regime constitucional em Espanha, consagrado na Constituição de Cádis de 1812, e levou ao poder os liberais que tinham sido perseguidos por Fernando VII aquando do seu retorno do exílio em França. Portugal fora um dos refúgios eleitos pelos liberais espanhóis, como foi o caso do general Cabanes, em que procuravam apoios em para os seus ideais revolucionários.
Todos esses acontecimentos não passaram despercebidos em Portugal, e tiveram impacto nas cidades onde as notícias iam chegando, e onde a burguesia tinha um papel de relevo. Particularmente no Porto onde a nobreza tinha menor presença e influência, que se vira invadida por desalojados das terras do interior e por desertores, e onde havia bons livreiros e os hábitos das tertúlias que trocavam as voltas à férrea censura da época.
Não admira que o Sinédrio tenha surgido no Porto, Uma sociedade secreta, impulsionada pela consternação que se seguiu à condenação à morte de Gomes Freire, formada por burgueses e por juristas, tendo como característica comum o elevado grau de cultura política e grande respeitabilidade social. Foi no seio do Sinédrio que fermentou a conjura e o ideário liberal que, garantindo a fidelidade à casa de Bragança, lhe exigia que aceitasse regressar a Portugal para reinar constitucionalmente.
O golpe militar, inspirado pelo Sinédrio, ainda que sem a participação dos seus membros, viria a eclodir em 24 de Agosto de 1820. As proclamações protestavam lealdade a D. João VI, condenavam qualquer violência ou anarquia, e faziam referência à reunião das Cortes para promulgação de uma Constituição; e logo foi constituída a Junta Provisória que passaria a dispor da suprema autoridade em nome do Rei.
Enquanto a Junta dos Governadores, em Lisboa, denunciava o horrendo crime de rebelião e confiava em que o exército se apressaria a apagar a mancha de que a sua honra está ameaçada, e a Junta do Porto reclamava que não se tratava de uma revolta, mas de um movimento para defender a dinastia reinante das ameaças que a cercavam, o exército que saíra do Porto ia sendo aclamado por todo o país. E foi assim que a revolução chegou à capital, com a entrada triunfal e pacífica do exército revolucionário em 1 de Outubro.
Foram terríveis os anos que se seguiram à revolução liberal de 1820, e o país só encontrou a paz com a regeneração. Entretanto, viveu-se uma sangrenta guerra civil e inúmeras revoltas num país dilacerado e indeciso.
Se esta revolução, liberal e burguesa, era inevitável no contexto histórico, também é inevitável que tivesse eclodido no Porto. Esse liberalismo procurou na monarquia constitucional um antídoto contra a tirania dos reis absolutos e contra a tirania das maiorias democráticas: combinando as duas legitimidades, monárquica e popular, aspirava a realizar um meio termo entre ambas, um ponto de equilíbrio entre a monarquia pura e a democracia pura, cuja forma consumada e natural seria a República, como escreveu Maria de Fátima Bonifácio.
Mas, nas décadas que se seguiram, e também durante o século XX, o ideário foi esmagado por duas forças contraditórias: pelo radicalismo crescente na Europa, com o seu ideal anticlerical da comunidade de seres iguais, e o Antigo Regime, com os seus afloramentos.
Um conflito insanável entre a macrocefalia da capital, consequência da história e do Império e pasto natural do radicalismo europeu e o país rural, religioso, obediente e conservador; a clássica oposição entre a cidade e o campo, como escreveu Vasco Pulido Valente.
Duzentos anos depois, sem nunca ter causado problemas aos sucessivos regimes, o Porto, mais reivindicativo do que revolucionário, continua, por razão dessa diferença que se espelha nesse contraste e na comparação com outras cidades, a guardar a tradição liberal e a fazer diferente.



Publicado por Tovi às 11:09
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2018
A tragédia de Sócrates

Já não se pode confiar nas namoradas  

 

  Fernanda Câncio no DN de hoje

fernanda câncio.jpg"Isto ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político", diz Sócrates. "É uma injustiça." E tem toda a razão. Ultrapassou mesmo todos os limites.
Vamos tentar uma coisa muito difícil: vamos esquecer que José Sócrates está acusado de uma série de crimes particularmente graves. Vamos esquecer o processo judicial e seus procedimentos, o aproveitamento político-partidário da questão, o comportamento de alguns media. Assentemos apenas em que, depois de ter sido primeiro-ministro sete anos e estabelecido residência em Paris durante algum tempo, de serem levantadas dúvidas sobre como conseguia sustentar-se e de o próprio assegurar denodada e indignadamente que o fazia graças a um empréstimo bancário e à ajuda da mãe, se soube que afinal as suas despesas eram suportadas por um amigo empresário - e em molhos de notas, à sorrelfa.

Vamos ignorar tudo menos isto: um ex PM que tratava como insulto qualquer pergunta ou dúvida sobre a proveniência dos fundos que lhe permitiam viver desafogadamente; que recusou receber pela sua prestação como comentador na RTP de 2013 a 2014; que ostentou, na saída do governo, a rejeição da subvenção vitalícia a que tinha direito por ser deputado eleito desde 1987 (e que agora está a receber), não teve afinal, desde que abandonou o governo até janeiro de 2013, quando se anunciou consultor da Octapharma, outros meios de subsistência senão o dinheiro do amigo (à generosidade do qual terá continuado a apelar mesmo quando auferia um ordenado de mais de 12 mil euros brutos por mês). Ou seja, fingiu ante toda a gente que tinha fortuna de família, rejeitando até rendimentos a que tinha direito como alguém que deles não necessitava. Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.
Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). Ao fazê-lo, não podia ignorar que estava não só a abusar da boa-fé dessas pessoas como a expô-las ao perigo de, se um dia se descobrisse a verdade, serem consideradas suas cúmplices e alvo do odioso expectável. Não podia ignorar que o partido que liderara, os governos a que presidira, até as políticas e ideias pelas quais pugnara, seriam conspurcados, como por lama tóxica, pela desonra face a tal revelação.
Este comportamento, que o próprio admitiu na primeira entrevista que deu a partir da prisão, sem, frise-se, pelo engano e mentira fazer qualquer ato de contrição, dar qualquer satisfação - e qual seria possível ou passível de satisfazer, diga-se - chegaria para clarificar a absoluta ausência de respeito pela verdade, pelas pessoas e por isso a que se dá o nome de bem comum de que padece José Sócrates.
E chegaria, devia chegar, para que qualquer pessoa, seja ou não do seu partido, reconheça que esta total deslealdade e falta de seriedade é suficiente para fazer um juízo ético e político sobre a sua conduta. Não é preciso falar de responsabilidades criminais, mesmo se a conduta descrita implica questionar por que carga de água um empresário pagaria, durante tanto tempo e sem aparente limite, as despesas de um amigo que tivera tais responsabilidades políticas, e por que motivo, se se trata de algo que o próprio vê tão sem problemas, isso foi cuidadosamente escondido não só do país como dos próximos.
Fazer publicamente esse juízo ético, no clima de caça às bruxas que se instalou após a revelação das mentiras de José Sócrates e das acusações de que é alvo, não é fácil. Quem sinta esse impulso, se for pessoa de bem, não pode deixar de ter pudor em bater em quem está por terra e temer ser confundido com a turba que clama por linchamento.
E para o seu partido -- um partido no qual Sócrates foi tão importante, até por ter sido o primeiro líder a conquistar uma maioria absoluta, e no qual tem ainda apoiantes que pelos vistos não se sentiram traídos com as suas mentiras nem acham nada de errado em um dirigente partidário e ex governante viver secretamente às custas de um empresário -- não era fácil declarar o óbvio. A saber, que independentemente de qualquer responsabilidade criminal alguém que age assim tem de ser persona non grata.
O PS esperou muito para o fazer e na verdade nem o fez bem. A sequência de declarações de dirigentes foi confusa e falou de suspeitas criminais - que estão por provar -- em vez de se centrar no iniludível: a assunção do próprio de que andou deliberadamente a enganar toda a gente. Confusas ou não, porém, as declarações levaram o ex-líder a finalmente libertar o partido do terrível peso da sua presença simbólica.
Mas, claro, José Sócrates sai vitimizando-se, falando de "embaraço mútuo" e ameaçando, segundo o Expresso, "vingar-se" - aventa mesmo "um amigo" que poderá "usar escutas a que teve acesso como arguido". Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.



Publicado por Tovi às 16:31
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017
A verdade… sobre a mentira do DN

Escreveu Rui Moreira na sua página do Facebook:

 

  Quando a verdade estraga uma boa notícia

Sim, a minha declaração de rendimentos ao tribunal constitucional está correcta. Sim, tudo é limpo e transparente. Sim, sempre assumi ter uma participação indirecta na Selminho.
Não poderia dizer que tinha quotas que não eram minhas.
Ainda assim, o DN, depois de ter sido ajudado a consultar documentos públicos que comprovam o que digo, escreve e faz manchete.
Resta-me a minha consciência e, principalmente, a inteligência de quem lê.
Resta-me assistir à agonia de uma certa imprensa que confia no facto de já não ter leitores e para quem o que conta é a manchete falsa.
Acabo citando George Orwell, que escreveu - não, não foi mas poderia ter sido no "Triunfo dos Porcos" - que a melhor forma de tentar destruir a reputacão de alguém é fazer-lhe acusações que não podem ser respondidas.
PS: Um dia contarei por que razão o diretor do DN - Paulo Baldaia - não está contente com a Câmara do Porto.
Há quem já esteja a perceber.
Baldaia.jpg



Publicado por Tovi às 08:25
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016
Morreu Miguel Veiga

Requiescat In Pace

Miguel Veiga morreu em 14Nov2016.jpg

Morreu ontem de manhã Miguel Luís Kolback da Veiga, um dos fundadores em Maio de 1974 do Partido Popular Democrático (PPD), um grande Senhor, um ilustre Portuense, um grande Homem do Norte… um grande PORTUGUÊS.

Há uns cinco anos disse Miguel Veiga numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro a propósito de um convite para ser ministro: “Não me apetecendo, não tendo o desejo, perdendo a minha autonomia, a minha liberdade, que é o factor para o qual tenho vivido toda a minha vida, e que me assegura a boa disposição ou o meu gosto de viver, pensei que me ia meter num buraco.”

 

 Comentários no Facebook

«Pedro Baptista» >> Chegou a sua hora! Seu pai e meu avô, vizinhos em Nevogilde, foram amigos. Foi colega de Primária e, pelo que me disse, amigo muito dilecto de meu falecido primo Armando Rui Rocha de Sousa. Quanto a mim, convivemos nos últimos anos... Não foram muitos, mas o convívio quando ocorria era intenso e profícuo... Pelo menos no que me diz respeito desenvolveu-se uma amizade. Apreciando os meus trabalhos em torno do pensamento português contemporâneo, entregou-me muita documentação sobre o seu tio Pedro Veiga, Petrus, nomeadamente o dossier da "Renovação Democrática" que este fundou com António Alvim, Álvaro Ribeiro e Eduardo Salgueiro por 1931 e de que foi o seu mais persistente e prolongado militante. Também o dossier da correspondência do Pedro Veiga com o filósofo Amorim de Carvalho, que entreguei a seu filho Júlio Amorim de Carvalho. Ofereceu-me as primeiras edições de quase toda a obra do tio, incluindo o estudo (em 4 ou 6 volumes) sobre Proudhon, obras raras. Ficou de me escrever a História (picaresca e pitoresca) da fundação do PPD, mas a sua bonomia era tal que, foi adiando, no caso eternamente, penso que com receio de poder ferir suscetibilidades ou ser menos simpático para com alguém. Na sua sala biblioteca, em Nevogilde, onde passámos numerosas tardes solarengas, ostentava de forma destacada um original do Manifesto de 9 de Junho de 1932, dos liberais que desembarcaram em Pampolide, Matosinhos, para fundarem o Portugal moderno. Com ele já bastante debilitado e limitado, ainda estivemos juntos, este princípio de verão, na Esplanada do Molhe de que sempre tanto gostámos. Foi uma tarde animadíssima e desta vez fui eu a pagar o lanche. Disse-me: - Bem, quando quiser lanchar já sei com quem hei de ir ter! Pois é, Miguel, infelizmente por aí não fico eu pobre. Um abraço caloroso e solidário à Belicha, sua mulher.

«Gonçalo Graça Moura» >> Nunca escreveu poemas, mas tem a arte de transformar os seus textos "em verdadeiros animais de companhia". Nasceu, cresceu e vive no meio de livros e centenas de pinturas que povoam as paredes da sua ampla casa, na Foz. É advogado, ajudou a fundar o PSD, e, garante, sempre esteve "bem com a vida. Há dias completou 75 anos: cinco amigos, "à revelia", fizeram esboços para um retrato do homem que, desde menino, diz andar com um poema no bolso. Os cinco esboços para um retrato de Miguel Veiga, reunidos, ganharam a forma de livro. Aliás, era a essa a intenção de José da Cruz Santos, o editor, quando convidou Artur Santos Silva, Luís Neiva Santos, Luís Valente de Oliveira, Mário Cláudio, Vasco Graça Moura e Álvaro Siza Vieira. Os quatro primeiros autores, através da palavra, esboçam o perfil do multifacetado Veiga "advogado", "amigo", "escritor, "político" e "portuense". Siza, com o seu traço inconfundível, faz o retrato. Há ainda, a abrir os depoimentos, um belíssimo poema de Marta Cristina de Araújo. A obra, como o próprio revela no prefácio, nasce à "revelia" do retratado. E ele gostou dos atributos com que foi enfeitado. "Graças a eles pude reconciliar-me comigo próprio, neste fim de tarde da minha vida, rente ao mar da foz." Miguel Veiga nasceu no Porto em 1936. E poucas pessoas, diz Vasco Graça Moura, terão sabido como ele falar da sua cidade. Sabe "captar-lhe a dimensão burguesa e popular, a altiva tradição cívica e a pungente humanidade, a luminosidade da paisagem, entre o granito, rio e mar". A Vasco Graça Moura cabia-lhe falar do Miguel Veiga portuense, mas não esqueceria o escritor e o advogado, que habitam a mesma personagem. "Nos idos de 1960, o Miguel Veiga era um jovem e fogoso advogado, com alta qualificação académica, fortíssima preparação técnica e uma combatividade fora do vulgar", lembra o escritor, também portuense e "fozeiro de gema". Entre a barra de tribunal e, às vezes, a política, Veiga teve ainda tempo para a escrita . Não em papel selado, isso fazia-o todos os dias: a outra escrita, que o fascinava desde a infância. "A alegria da escrita", como diz Vasco Graça Moura, que havia de partilhar nos ensaios, na intervenção política e na crítica cultural. Em todos os cinco esboços para um retrato de Miguel Veiga, a faceta do homem de cultura é valorizada. Leitor atento, coleccionador "quase infalível" nas aquisições, o que não o impediu de "ajudar muitos artistas em dificuldades, sobretudo os mais novos". Graça Moura lembra ainda a relação curiosa que o advogado mantém com os artistas. "Ouvi o Veiga garantir com toda a seriedade que tinha mandado instalar na banheira uma 'menina' do João Cutileiro, porque era uma maneira de tomar banho com ela todos os dias...". Na casa de campo em Loivo, no Minho, não terá a "menina" na banheira, mas o advogado levou para um canto do jardim uma "Anja", do mestre José Rodrigues. "A vida tem-me tratado bem desde o berço, a meninice e por aí fora, nesta minha sorridente, mais repousada e confortavelmente instalada veterania de três vezes vinte cinco anos." (DN, 27.08.2011)



Publicado por Tovi às 07:44
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