"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014
O Teorema de Bayes e a Presunção de Inocência

O meu amigo José Costa Pinto, ilustre professor na UTAD em Vila Real, deu-nos ontem no Facebook uma aula sobre presunção de inocência. Ora leiam:

 

Muito se tem falado ultimamente da presunção de inocência que o sistema legal deve aplicar aos arguidos. Porque há alguma confusão sobre esta matéria, aqui vai um modesto contributo.

O princípio de presunção de inocência é um principio jurídico. Quer dizer que se aplica — e bem — nas fases processuais ou instrutórias de um processo, e visa garantir que uma pessoa não possa ser diminuída nos seus direitos de defesa e nos seus direitos morais e constitucionais como pessoa, sem que tenha sido demonstrada juridicamente a sua culpabilidade em julgamento.

Mas não é um princípio lógico ou epistemológico e não orienta o raciocínio humano normal. Os seres humanos, no seu dia-a-dia, aplicam — muitas vezes mal, é certo, mas isso é irrelevante para o presente contexto — regras de pensamento lógico que se baseiam no conhecimento do mundo e no cálculo de probabilidades. Essas regras são encapsulados num teorema, o Teorema de Bayes, que é a expressão formal do cálculo racional na sua forma mais depurada e abstracta.

Os meus amigos que não estão familiarizados com este teorema poderão encontrar explicações sobre ele na net.

Os humanos estão sempre a avaliar as probabilidades relativas de hipóteses alternativas e mutuamente exclusivas com base (1) no que sabem a priori sobre o mundo e (2) na evidência disponível para o caso em apreço. Por exemplo, suponha-se que chegamos a casa ao fim da tarde e a porta da mesma está aberta. As duas hipóteses alternativas (e mutuamente exclusivas) são: (a) fui assaltado e (b) não fui assaltado. O teorema de Bayes explicita as probabilidades relativas de (a) e (b) a partir da nossa computação avaliativa de:

(i) a probabilidade (chamada anterior ou prévia ou absoluta) de eu ter sido assaltado (ou não), independentemente de a porta estar aberta ou fechada;

(ii) a probabilidade (posterior ou consequente) de que a evidência de que dispomos (neste caso o facto de a porta estar aberta) poder ocorrer se a hipótese (a) (i.e., fui assaltado) for verdadeira;

(iii) a probabilidade (chamada posterior ou consequente) de que a evidência de que dispomos (neste caso o facto de a porta estar aberta) poder ocorrer se a hipótese (b) (i.e., não fui assaltado) for verdadeira;

A partir destas três probabilidades, a nossa conclusão segue-se, via o dito Teorema de Bayes, de forma lógica e irrefutável.

Note-se que:

- a nossa computação das probabilidades de (i), (ii) e (iii) contém um elemento subjectivo e pode mudar com o estado do nosso conhecimento do mundo;

- uma vez fixadas essas probabilidades, as probabilidades relativas de (a) e (b) seguem-se com inexorabilidade matemática.

O caso da porta aberta é apenas um exemplo. Nós pensamos assim em tudo o que depende de probabilidades, o que quer dizer que estamos constantemente a aplicar este teorema, quer o conheçamos ou não, nas matérias mais diversas da nossa existência quotidiana. Alguns exemplos:

- passeando num bosque, há uma restolhada num arbusto. Qual a probabilidade de irmos ser atacados por um animal feroz?

- alguém nos conta que viu um disco voador. Qual a probabilidade de isso ser verdade?

- a nossa namorada diz-nos que nos ama. Qual a probabilidade de ela estar a mentir?

- um amigo pede-nos dinheiro emprestado. Qual a probabilidade de ele nos pagar?

- um político faz uma promessa eleitoral. Qual a probabilidade de ela ser cumprida?

- um médico diz-nos que a nossa doença não é preocupante. Qual a probabilidade de ser uma mentira piedosa?

- um arguido diz-se inocente. Qual a probabilidade de ele ser culpado?

Este último exemplo é precisamente o caso que ocupa a atenção nacional nos últimos dias. E é bayesianamente que deve ser abordado por nós. Insisto neste ponto. Nós devemos aplicar o teorema de Bayes, e não o princípio de presunção de inocência, para avaliar este caso. O princípio jurídico da presunção de inocência é irrelevante para nós, porque NÃO SOMOS JURISTAS. Ele é relevante na fase instrutória de um processo, e para os agentes justiciários, mas não para nós, que não estamos a instruir processo nenhum. Estamos simplesmente a avaliar subjectivamente, e como pessoas, as probabilidades alternativas (a=Sócrates é inocente) e (b=Sócrates é culpado). E podemos naturalmente publicitar as nossas conclusões.

Note-se que a nossa avaliação, como tenho insistido, é subjectiva, porque resulta da nossa avaliação, igualmente dependente dos nossos conhecimentos e avaliações, das probabilidades (i), (ii) e (iii). Mas, como não somos juízes de instrução criminal, ela fica connosco e só a nós nos compromete.

Note-se finalmente que mesmo o sistema judicial aplica o teorema de Bayes, quer na fase instrutória (o juiz de instrução aplica-o na determinação das medidas de coacção, se as há), quer na determinação da culpabilidade, durante o julgamento.

O importante aqui é perceber que o princípio de presunção de inocência é um princípio jurídico e não lógico e epistemológico. O juiz de instrução deve aplicá-lo, no que respeita às garantias procedimentais e constitucionais do arguido, mas até as medidas de coacção são geridas, não por esse princípio, mas sim pelas regras do cálculo bayesiano, isto é, pelo teorema de Bayes e seus corolários.

E pedir que nós, que não temos influência na máquina penal, não o usemos é pedir que não usemos o cérebro.

 

 Exemplo prático usando o “Bayesian Calculator”

Vamos brincar com isto no caso de Sócrates. Sejam:

H - a hipótese de Sócrates ser corrupto;

E - A evidência disponível neste caso;

P(H) - a probabilidade de um político português destacado e com responsabilidades governativas latas ser um corrupto, independentemente de qualquer evidência (probabilidade anterior ou a priori);

P(E|H) - a probabilidade da evidência - conta de 20 milhões em nome de amigo, estilo faustoso de vida, etc - se Sócrates for um corrupto;

P(E|H') - a a probabilidade da evidência - conta de 20 milhões em nome de amigo, estilo faustoso de vida, etc - se Sócrates não for um corrupto.

Tomemos P(H) como 10%, isto é, que a probabilidade a priori de um político português ser corrupto é (apenas?) de 10%;

Tomemos P(E|H), isto é, a probabilidade da evidência ocorrer se Sócrates for corrupto, como 95%;

Tomemos P(E|H'), isto é, a probabilidade da evidência ocorrer se Sócrates não for corrupto, como 5%.

Aplicando o teorema de Bayes, a P(H) (=Sócrates é corrupto) é de 68%.

Obviamente esta probabilidade varia com os nossos pressupostos. Tentem colocar valores que acham plausíveis na fórmula, para ver o resultado...



Publicado por Tovi às 09:04
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2014
Quem é que me f---- o cravo?


«Flórido Tó» no Facebook >> Presumo que os espaços abertos---- correspondam ao que os nossos governantes esperam que lhes façam!!!!!!!!!

«José Costa Pinto» no Facebook >> David Ribeiro, devo ter sido eu. PS: leia o meu último post. Um abraço.

«David Ribeiro» no Facebook >> Li e gostei... e por isso o vou transcrever:
{#emotions_dlg.chat} "NÃO FOI PARA ISTO QUE FIZEMOS O 25 DE ABRIL!"
Perante um filho que se 'porta mal' — seja o que isso queira significar em cada circunstância — certos pais e mães suspiram e exclamam, ainda que às vezes em surdina: "Mas foi para isto que eu fiz um filho?"
Esquecem, é claro, que um filho não é um 'para quê', mas um ser autónomo e livre, com a sua própria trajectória.
Gentes: não foi para 'nada' que se fez o 25 de Abril. Quem o fez, estava mal, ou achou que podia estar melhor, ou estava simplesmente carregado de amor pelo próximo, ou porque sim. E fê-lo porque podia. Ponto final.
É tempo de acabar com o moralismo paternalista e metafisicamente bacoco de certos discursos. Como se fossem nossos paizinhos e nós, os hoje vivos, uns fedelhos irresponsáveis que é preciso trazer de volta à escola pelas orelhas.
Eu estava lá e já não sei quem eu era então. Que arrogância a minha se quisesse impor o que era então aos que são hoje. Se têm algo a propor, proponham-no, porra! Mas parem de vez com esta cantilena acusatória.
Como se os filhos tivessem de justificar as opções dos pais! Não têm. Quanto muito, são os pais que têm de justificar o que fizeram aos seus filhos.
"Olha lá, pai, porque carga de água destruíste a economia do país em 1974?" Que tal? Agrada-vos a questão assim reformulada?

«Albertino Amaral» no Facebook >> David Ribeiro, está pois encontrada a resposta para quem lhe "partiu" o cravo… Foi o próprio 25 de Abril…

«Jorge Saraiva» no Facebook >> Apenas achei desenquadrada a questão reformulada, desvaloriza o que anteriormente está (muito bem) dito.

«David Ribeiro» no Facebook >> Já agora vou aqui colocar um pequeno texto que o meu amigo Pedro Baptista escreveu há poucos dias:

{#emotions_dlg.chat} A prova de que não houve revolução nenhuma em 74 ou 75 é a situação em que estamos. O que houve foi o fim do putrefacto regime anterior, derrubado pela sua própria tropa, e com isso o fim do fascismo e do colonialismo como era reclamado pelo espaço europeu para a integração europeia. Em seguida o que houve foi luta partidária pelo poder e profunda agitação social durante ano e meio. Nesse período surgiram inúmero revolucionários que nunca tinham sido vistos antes e o próprio povo português, com as costas quentes pela tropa, tornou-se insubmisso e afirmativos dos seus direitos. Mas foi por pouco tempo. Pouco depois, cansado, adormeceu e desistiu sem perceber nem querer perceber que os protetores eram provisórios e que os direitos como a liberdade não se conquistam à sombra de ninguém.

«Joaquim Leal» no Facebook >> Liberdade e pouco mais. 40 anos deitados á rua. pqp

«Jorge Saraiva» no Facebook >> A liberdade é basilar e fundamental

«Jorge Veiga» no Facebook >> Pois eu vivi bem o 25/4 aos 25 anos. Já não era uma criança. E hoje já não penso da mesma maneira, nem poderia pensar, porque envelheci e o pensamento amadurece e altera-se, a não ser para alguns cristalizados no tempo.

«Joaquim Leal» no Facebook >> Ao longo destes 40 anos tivemos todas as oportunidades de nos tornarmos um país próspero, um país justo, enfim, um país decente. Olho agora á minha volta e só vejo incompetência, gatunice. Perdi quase 50 anos de vida para isto, porra.

«Jorge Veiga» no Facebook >> Joaquim Leal há muitos que pensam o mesmo, eu incluido. Por isso o que disse atrás...

«Joaquim Leal» no Facebook >> Pois, eu percebi

«Jorge Veiga» no Facebook >>  e 20 anos chegava, para alterar o País. Os outros 20 onde param? No bolso de alguns mui democráticos que por aí grassam e até nos insultam...

«David Ribeiro» no Facebook >> Fizemos tudo bem no dia 25 de Abril de 1974 e eu até estava lá de arma na mão... mas depois os dias seguintes não foram os que deveriam ter sido e a culpa é de todos nós.

«Jorge Veiga» no Facebook >> É David Ribeiro, o que estragou o dia 25/4 foi o dia 26...

«Joaquim Leal» no Facebook >> Hoje questiono-me se teria valido mesmo a pena outro 25, o de Novembro. Não excluo até se não teria sido uma boa ideia as "matinés" que Otelo pretendia promover para o Campo Pequeno.

«Luiz da Cunha» no Facebook >> Totalmente de acordo... estive a lêr umas coisas e vi que o lugar dos cravos é nos vasos... canos de G3 servem para "outras coisas"... David Ribeiro

«Joaquim Leal» no Facebook >> Hoje questiono-me se teria valido mesmo a pena outro 25, o de Novembro. Não excluo até se não teria sido uma boa ideia as "matinés" que Otelo pretendia promover para o Campo Pequeno.

«Luiz da Cunha» no Facebook >> Totalmente de acordo... estive a lêr umas coisas e vi que o lugar dos cravos é nos vasos... canos de G3 servem para "outras coisas"... David Ribeiro

«José Costa Pinto» no Facebook >> É. Deviam-se ter matado uns gajos. Adoro a ideia. Sou todo a favor. Clap, clap, clap.

«Joaquim Leal» no Facebook >> eh eh eh

«Henrique Camões» no Facebook >> Subscrevo a opinião do José Costa Pinto, também estive lá... e nos tempos que o seguiram (com excepção do que passei em Angola), somos nós de facto, que devemos justificação.

«Loja Do Pecado Guimaraes» no Facebook >> No mínimo serve para o tratares e manter a esperança



Publicado por Tovi às 08:00
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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013
Tribunal Constitucional – O caso de Portugal - #3

Concluindo a leitura de «Judicial Independence and Party Politics in the Kelsenian Constitutional Courts: The Case of Portugal» de Sofia Amaral-Garcia, Nuno Garoupa, and Veronica Grembi:
{#emotions_dlg.star} No período que os autores deste trabalho estudaram (1983-2007), pode-se ver que os juízes de partidos de direita são muito mais propensos a votar em favor da constitucionalidade do que os juízes de partidos de esquerda. Não me parece muito líquido que dos valores apresentados em várias tabelas incluídas neste trabalho se possa concluir que “embora os juízes nomeados pelos partidos conservadores (direita e Democratas-Cristãos) não parecem ser significativamente afectados pelo fato de que o seu partido ou bloco ideológico está no poder, o oposto é verdadeiro para os juízes nomeados pelos partidos de esquerda (socialistas e comunistas)”. Até pode ser que se possa “ler” isso nos números apresentados (não tenho saber nem conhecimentos suficientes para isso ver) mas a ideia que o comum dos mortais tem dos juízes do TC não me parece ser esta. Mas por outro lado estou inteiramente de acordo quando dizem que “os resultados indicam que a política de partido desempenha um papel importante no Tribunal Constitucional português” sendo verdade que “a evidência empírica sugere que a pressão social é muito relevante para unânime votação”.


«Jose Antonio Salcedo» no Facebook >> Excelente artigo. Como intuía, a separação de poderes tem um elemento significativo de ficção, tal como seria de esperar. O que significa que o meu post [ver abaixo] tem razão de ser, agora justificado por dados objectivos.

{#emotions_dlg.chat} Considero que o Tribunal Constitucional (TC) é inconstitucional, dado não satisfazer a exigência de separação de poderes que está consagrada na Constituição. Sendo os seus juízes nomeados pelos partidos políticos e uns pelos outros, e nem sequer sendo exigido que tenham reconhecida competência em Direito Constitucional, este tribunal é mais um instrumento político na nossa sociedade que julga em causa própria. Devia ser extinto, criando-se uma Secção Constitucional no Supremo que deveria integrar exclusivamente juízes de carreira especialistas em Direito Constitucional. Até isso acontecer, considero o actual TC como mais uma manifestação da mediocridade política que caracteriza a organização e a gestão do país, assim como uma instituição orientada a servir interesses partidários. Como os actuais partidos se preocupam sobremaneira com os seus próprios interesses e não com os do país, considero que o TC não serve o interesse público.

«David Ribeiro» no Facebook >> O artigo «Judicial Independence and Party Politics in the Kelsenian Constitutional Courts: The Case of Portugal» de Sofia Amaral-Garcia, Nuno Garoupa, and Veronica Grembi, veio publicado na revista Journal of Empirical Legal Studies, tendo-me chegado às mãos por cortesia do meu amigo José Costa Pinto, professor na UTAD.



Publicado por Tovi às 08:00
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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2013
Tribunal Constitucional – O caso de Portugal - #2

Continuando a ler e a comentar «Judicial Independence and Party Politics in the Kelsenian Constitutional Courts: The Case of Portugal» de Sofia Amaral-Garcia, Nuno Garoupa, and Veronica Grembi:
{#emotions_dlg.star} Dizem os autores deste trabalho que Portugal tem uma constituição muito longo e detalhada (actualmente 296 artigos) fazendo com que o Tribunal Constitucional seja muitas vezes chamado a intervir na sua interpretação. É certo, mas isso é um vício generalizado dos legisladores portugueses que só fomenta o negócio de pareceres e mais pareceres, tão ao gosto dos políticos nacionais. Um pouco mais à frente, neste segundo capítulo intitulado “O Caso Português”, é-nos dito que os pedidos de fiscalização de Leis ao TC feitos pelo Presidente da República são mais prováveis quando o governo e a maioria no parlamento são de um partido diferente do PR, o que curiosamente e nos tempos que correm, até nem se verifica. Há que ter em conta que este artigo foi publicado em Junho de 2009. Convém recordar, e isso é-nos referido pelos autores, que o Tribunal Constitucional é composto por 13 juízes, dez dos quais são eleitos pelo Parlamento, e os três restantes escolhidos pelos juízes eleitos, pelo que é justo dizer que a composição do TC tende a reflectir a composição política da Assembleia da República.

«Jorge Veiga» no Facebook >> Mas são Juizes e não devem nada ao Governo ou à Assembleia, salvo se andarem a fazer fretes!

«Jose Antonio Salcedo» no Facebook >> Frequentemente, não são juízes de carreira.

«David Ribeiro» no Facebook >> Pois é... Só seis deles é que são obrigatoriamente juízes de carreira.

«Jose Antonio Salcedo» no Facebook >> Os outros 7, a maioria, para mim, são 'comissários políticos'.

«David Ribeiro» no Facebook >> Mas curiosamente, nos últimos tempos, não têm reflectido "a voz do dono" (se calhar esta forma de me exprimir foi muito forte... mas assim percebe-se melhor o que quero dizer).

«Albertino Amaral» no Facebook >> Entende-se perfeitamente David Ribeiro, por isso eu também achava que o TC deveria ser ele próprio, Independente, apartidário, apolítico, neutro... Portugal é um país de lobbies, padrinhos, cunhas, seitas, etc. etc.

{#emotions_dlg.star} Nas acções preventivas do Tribunal Constitucional analisadas até 2009 as declarações de inconstitucionalidade foram essencialmente declaradas quando a legislação era apoiada por uma ampla maioria no Parlamento, o que nos faz acreditar que as leis “negociadas” entre diferentes correntes políticas estarão sempre mais de acordo com a Constituição. É no entanto curioso verificar que os autores deste trabalho chegaram à conclusão que quanto maior a proporção de juízes dentro do tribunal que são filiados ou próximos do partido ou partidos que suportam uma peça de legislação, quanto menor é a probabilidade de o tribunal declarar a legislação inconstitucional.



Publicado por Tovi às 08:00
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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013
Tribunal Constitucional – O caso de Portugal - #1

Já comecei a ler «Judicial Independence and Party Politics in the Kelsenian Constitutional Courts: The Case of Portugal» de Sofia Amaral-Garcia, Nuno Garoupa, and Veronica Grembi, uma cortesia do meu amigo José Costa Pinto. Os meus primeiros comentários:

{#emotions_dlg.star} Logo na introdução deste texto diz-se que “a jurisdição constitucional deve responder a interesses de longo prazo e impedir os políticos de maximizar oportunidades de curto prazo” o que é, no meu entender, o primordial interesse das constituições de países soberanos e democráticos. Já dizer que os juízes do Tribunal Constitucional não são totalmente independentes por serem nomeados pelos partidos políticos com assento no Parlamento, parece-me exagerado ou mesmo não verdadeiro, como se tem visto nos últimos tempos em Portugal. (Logo à noite leio mais e depois comento. Ver texto original aqui)

«José Costa Pinto» no Facebook >> David, qual é a passagem da introdução onde os autores dizem que "os juízes do Tribunal Constitucional não são totalmente independentes por serem nomeados pelos partidos políticos com assento no Parlamento"?

«David Ribeiro» no Facebook >> Uma dedução minha, proveniente de uma tradução livre: "On one hand, conflict may exist because constitutional judges are appointed, and therefore heavily influenced by political parties (judicial independence becomes an issue)".

«José Costa Pinto» no Facebook >> Mas os autores estão apenas a descrever a situação, e nem sequer se referem a Portugal aí. Aliás, todo o estudo, que é de natureza essencialmente estatística, se destina a investigar se, em Portugal, a filiação partidária dos juízes do TC está correlacionada com o seu sentido de voto. Os autores não filosofam. É por isso que o estudo é tão interessante.

«David Ribeiro» no Facebook >> Sempre tive o hábito de ao ler um livro ir escrevendo a lápis pequenos comentários nas margens e é um pouco isso que estou agora a fazer. É evidente que no fim da leitura da obra verifico normalmente que alguns desses meus comentários até nem tinham razão de ser, pois fazer considerações e juízos de valor sem se saber ainda muito bem de que é que se está a falar, dá no que dá.

«José Costa Pinto» no Facebook >> Bom e saudável hábito. :-)  Duas notas: (1) o artigo foi publicado na revista Journal of Empirical Legal Studies, sublinho o empirical no título; (2) creio que a tradição deles é a da chamada Constitutional Economics. Veja, por exemplo, o artigo da wikipedia sobre isso.



Publicado por Tovi às 13:30
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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013
Algumas reflexões sobre a Síria

O meu amigo José Costa Pinto, homem culto e grande estudioso das sociedades antigas e actuais, dizia ontem que não conhece a Síria contemporânea, sabendo no entanto muito sobre a Síria de há 2000 anos, mas como tem vindo a ler tudo o que encontra sobre o que se está a passar neste país do Médio Oriente, conclui o seguinte:

{#emotions_dlg.star} Algumas reflexões sobre a Síria

1. A minoria alauíta no poder - cerca de 10% da população - é de religião xiita e subsiste com muita dificuldade no seio de uma maioria sunita. As vicissitudes da história moderna entregaram-lhes o poder militar, que eles têm usado nos últimos 40 anos para evitar o seu extermínio pela maioria sunita. Como é comum na generalidade das sociedades humanas, o processo utilizado para se aguentarem foi o da ditadura político-militar, algo similar ao ocorrido no Iraque do tempo de Saddam Hussein e por razões similares;
2. A revolta iniciada em 2011, no contexto da Primavera Árabe, rapidamente degenerou num conflito armado de raiz socio-religiosa. Era igualmente de esperar. Os salafistas (al-qaeda, irmandade, etc.) tomaram o controlo do processo, apoiados pelos principados árabes, igualmente interessados em substituir a 'revolução' por uma nova ditadura de inspiração religiosa; uma república laica é a última coisa em que estes árabes estão interessados;
3. O conflito poderia ter acabado cedo - como na Líbia - se não fosse o supremo interesse do Irão (e, em menor grau, da Rússia) na Síria. Não só porque os alauítas são xiitas, mas sobretudo porque uma Síria xiita é o corredor necessário de acesso ao mediterrâneo pelo Irão. Este corredor é importantíssimo por razões económicas - a construção de um pipeline - e por razões políticas, já que a Síria tem uma posição estratégica como vizinho de Israel. O Irão tem há muito tempo jogado a cartada de ser o inimigo mais consistente de Israel no seio do mundo muçulmano. Por causa desse interesse do Irão, e também pelo apoio concorrente da Rússia, o regime alauíta tem aguentado militarmente;
4. Os alauítas vão suportar a guerra até ao limite. Perder não é opção. Perder é o extermínio ou o exílio;
5. A derrota dos alauítas, a acontecer, não significará o fim da guerra, mas apenas a sua deslocação para uma nova fase, em que as minorias - e não apenas a alauíta - serão perseguidas e, se necessário, exterminadas. É a pax salafita;
6. Obama e os americanos. Claro que a administração americana sabe tudo isto. A questão é que os ianques 'têm' de intervir sempre que a situação ultrapassa um certo limite, dado o seu papel de 'polícias' do cosmo e o que consideram ser os seus interesses geo-estratégicos. É difícil ser muito rigoroso nestas questões, e eu sou decididamente adverso a explicações reducionistas do tipo 'conspiração do complexo militar-industrial' ou outras. Sem negar que às vezes há interesses particulares que se manifestam, estou convencido que as decisões dos grupos políticos são o resultado de muitos factores, alguns deles não completamente conscientes. Afinal, a política também se faz de 'convicções' ou topoi ideológicos e culturais. E até de manias de dirigentes específicos, o famoso 'elemento pessoal'. Obama é particularmente opaco, uma pessoa que não se sabe muito bem quem é e o que pensa. De qualquer modo, os EUA não 'podiam' abaster-se perante o clamor internacional, e tinham de escolher entre dois males: o Irão e os salafistas. Por razões que só eles conhecem - se é que conhecem - escolheram os salafistas. O ideal para a administração Obama é morder ou debilitar os alauítas sem os liquidar. 'Depois se verá', oiço-os dizer entre si;
7. Israel está entre Sila e Caribdis. As coisas não podem de imediato correr bem para eles. Estão na expectativa. Tudo pode acontecer se a situação na Síria degenerar. E vai degenerar. Quando isso acontecer, Israel vai ter uma posição mais activa no conflito, mas os termos exactos em que isso se passar dependerá de quem estiver na mó de cima;
8. A melhor atitude para o ocidente, tendo em atenção aquele vespeiro, era esperar para ver. Uma intervenção nunca será bem vista pelos muçulmanos, e só aumentará a sua frustração (como aliás, a não intervenção, a qual serve para eles se dizerem uns aos outros que o ocidente não quer saber dos direitos humanos para nada). Nada do que o ocidente faça será bem vindo, por isso porque não fazer simplesmente ... nada? Pelo menos poupavam-se vidas e dinheiro. Mais tarde teremos de intervir, mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas.


«Maria Helena Costa Ferreira» no Facebook >> mesmo muito difícil!

«Carlos Miguel Sousa» no Facebook >> David Ribeiro, Parabéns pela excelente análise, que subscrevo na integra.

«David Ribeiro» no Facebook >> Caríssimo Carlos Miguel Sousa... Os parabéns têm que ser dados ao autor do texto que transcrevi, o Professor da UTAD José Costa Pinto.

«Carlos Miguel Sousa» no Facebook >> Nesse caso, obrigado pela partilha. :-)

«Phillipe Phaser» no Facebook >> Um ponto de vista um pouco reducionista que tal como afirma no inicio não contempla a realidade actual da Síria, senão uma visão histórica das raízes daqueles povos. Julgo que esta opinião também é de considerar: Syrian Girl’ reveals truth about Syria   Somos todos Portugueses que estamos a sofrer na pele um processo de escravização financeira e tomada de recursos nacionais por via da banca internacional. Deveria-mos, por isso, ser sensíveis ao argumento de que a Síria ainda é um país livre da especulação financeira internacional, para alem de outros factores. De igual modo chamo também a atenção para o facto histórico nacional, que só após o 25/4/74 nos subjugamos ao FMI. Creio, por tudo isto, que são os bancos os fantasmas por detrás de todas estas guerras e revoluções manipuladas nos quatro cantos do globo. Tudo isto se resume a jogos de poder e o poder da actualidade é a divida, como nós portugueses bem sabemos.

«Carlos Miguel Sousa» no Facebook >> Phillipe Phaser, Uma pequena correcção histórica; Faz hoje 50 anos que Portugal aderiu ao FMI

«Jorge De Freitas Monteiro» no Facebook >> Excelente analise

«Phillipe Phaser» no Facebook >> Obrigado por a correcção, Carlos. De facto aderimos ao FMI em 1960 como refere o texto, mas o meu comentário não será de todo descabido a ver por a seguinte passagem no texto: "...Com a chegada da democracia a polémica manteve-se, desta vez não porque o Portugal entrou no FMI mas porque, em 1977 e 1983, o FMI entrou em Portugal..." Julgo que mesmo assim se compreende a ideia que queria transmitir.

«José Costa Pinto» no Facebook >> Viva, caro David Ribeiro. Só uma pequena correcção à sua epígrafe: eu não andei a ler 'tudo', deus me livre. Limitei-me a consultar a informação mais acessível que existe na net. Por isso não me atrevi a dizer nada que não fosse 'claro e distinto', sob pena de errar. Conheço os meus limites.

«David Ribeiro» no Facebook» no Facebook >> Não terá sido "tudo", certamente, mas foi o suficiente para o José Costa Pinto nos dar uma visão clara e precisa do tema.



Publicado por Tovi às 20:46
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